A adoção de inteligência artificial (IA) nos estabelecimentos de saúde brasileiros segue em crescimento, mas ainda concentrada principalmente em atividades operacionais e administrativas. Dados da 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, divulgada nesta terça-feira (12) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostram que 18% das unidades de saúde do país já utilizam algum tipo de Tecnologia baseada em IA.
O percentual é ainda maior em hospitais com mais de 50 leitos, onde a adoção chega a 31%, e nos Serviços de Apoio Diagnóstico e Terapêutico (SADT), que registram índice de 29%.
O levantamento foi realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ligado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), e evidencia que a inteligência artificial está sendo usada principalmente para organizar processos clínicos e administrativos.
Entre os estabelecimentos que já utilizam IA, os modelos generativos lideram com presença em 76% das unidades. Em seguida aparecem mineração de texto, utilizada por 52%, e automação de processos, presente em 48%.
As aplicações mais comuns envolvem organização de rotinas clínicas e administrativas, melhoria da segurança digital e aumento da eficiência dos tratamentos.
Segundo Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br, a rápida expansão das ferramentas de IA nos últimos anos motivou mudanças metodológicas na pesquisa.
“Nos últimos anos, observamos uma rápida disseminação das tecnologias de Inteligência Artificial. Por isso, tornou-se importante ampliar a investigação para compreender como essas tecnologias vêm sendo incorporadas pelo conjunto dos estabelecimentos de saúde”, explicou.
Apesar do avanço, a pesquisa revela desafios importantes para ampliar a adoção da IA no setor. Nos hospitais com mais de 50 leitos, os principais obstáculos apontados foram os custos elevados, mencionados por 63% dos gestores, além da falta de priorização institucional e limitações relacionadas a dados e capacitação.
Já nos SADT, os principais entraves envolvem falta de interesse, ausência de prioridade estratégica e preocupações relacionadas à privacidade de dados.
Para Luciana Portilho, coordenadora de projetos de pesquisa do Cetic.br, o avanço da inteligência artificial exige preparação técnica e regulamentação adequada.
“O avanço do uso da Inteligência Artificial na saúde exige profissionais qualificados para que essa tecnologia seja aplicada de forma segura e responsável. Além disso, a consolidação de diretrizes e marcos regulatórios é fundamental para sustentar a adoção ética da IA em um setor que lida com informações sensíveis e impacta diretamente no cuidado com os pacientes”, destacou.
A pesquisa também mostrou que o uso de Big Data ainda é limitado na saúde brasileira. Apenas 9% dos estabelecimentos realizaram análises utilizando essa tecnologia em 2025. O índice sobe para 30% nos hospitais com mais de 50 leitos e para 11% nas instituições privadas.
Os dados analisados são, em sua maioria, gerados pelas próprias unidades de saúde, como prontuários eletrônicos e registros administrativos.
Outro desafio identificado pela TIC Saúde é a interoperabilidade entre sistemas. Embora 92% dos estabelecimentos utilizem sistemas eletrônicos para registrar informações de pacientes, menos da metade possui plataformas capazes de trocar dados eletronicamente com outras instituições.
A pesquisa aponta que apenas 44% conseguem enviar ou receber encaminhamentos eletrônicos, enquanto 41% compartilham relatórios de assistência prestada ao paciente e 37% trocam resultados laboratoriais digitalmente.
Pela primeira vez, o estudo também investigou a integração à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da Saúde. O levantamento mostra que 44% dos estabelecimentos estão conectados à rede, com maior adesão nas Unidades Básicas de Saúde (72%) e no setor público (64%).
“A interoperabilidade entre os sistemas de saúde pode contribuir para ampliar a eficiência dos serviços e melhorar a experiência do paciente, ao facilitar o compartilhamento seguro de informações clínicas entre diferentes estabelecimentos”, afirmou Portilho.
A conectividade também impulsionou o crescimento de serviços digitais aos pacientes. Em 2025, 39% dos estabelecimentos já disponibilizavam acesso online a resultados de exames, 34% permitiam agendamento digital de consultas e 32% ofereciam marcação online de exames.
O maior avanço ocorreu nos canais digitais de interação entre pacientes e equipes de saúde, que passaram de 16% em 2023 para 35% em 2025.
Entre os serviços de telessaúde, a teleconsultoria foi a modalidade mais difundida, presente em 36% das unidades, seguida por teleconsulta, telediagnóstico e telemonitoramento.
A pesquisa também chama atenção para a segurança da informação. Apenas 42% dos estabelecimentos possuem política formal de segurança digital, índice maior no setor privado. Quase metade das unidades realizou treinamentos de segurança da informação com funcionários.
No entanto, medidas mais robustas relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), como definição de encarregado de dados e planos estruturados de resposta a incidentes, ainda aparecem em cerca de apenas 30% dos estabelecimentos avaliados.






















