Nas últimas duas décadas, o avanço do corporate venture capital (CVC) consolidou a estratégia de grandes empresas investirem diretamente em startups como forma de acelerar inovação e ampliar competitividade. Apesar do crescimento do modelo, os resultados financeiros têm ficado abaixo do esperado em grande parte das operações.
Relatórios globais de venture capital apontam que os CVCs participaram de aproximadamente 25% das rodadas de investimento no mundo em 2024. Ainda assim, o desempenho médio dessas operações ficou abaixo dos fundos independentes em indicadores como taxa interna de retorno (IRR) e número de exits bem-sucedidos.
Segundo Amure Pinho, fundador da Investidores.vc, o principal problema está na forma como muitas corporações estruturam seus fundos de investimento.
“O CVC que não nasce com governança independente, tese clara e horizonte de 10 anos está estruturalmente condenado a performar abaixo do mercado. E isso explica por que a maioria perde dinheiro: não é falta de oportunidade, é falta de modelo”, afirma.
De acordo com especialistas, muitas empresas ainda tratam o corporate venture capital como uma extensão das áreas de inovação, marketing ou pesquisa e desenvolvimento, quando, na prática, venture capital exige disciplina financeira, visão de longo prazo e gestão especializada.
Outro fator que pesa negativamente é o timing de mercado. Diversas companhias criaram braços de investimento durante o período de euforia vivido entre 2020 e 2021, quando o volume global investido em venture capital ultrapassou US$ 600 bilhões. Com a desaceleração econômica e a alta dos juros globais, muitas dessas iniciativas foram reduzidas ou encerradas antes do amadurecimento dos investimentos.
Entre os principais erros apontados no desempenho dos CVCs está a ausência de uma tese de investimento clara e mensurável. Sem definição objetiva sobre setor, estágio das startups, ticket médio e expectativa de retorno, os investimentos acabam dispersos e pouco eficientes.
Outro problema recorrente é o conflito entre o horizonte de retorno do venture capital e a dinâmica corporativa tradicional. Enquanto fundos independentes trabalham com ciclos de investimento de oito a doze anos, muitas empresas operam pressionadas por metas trimestrais e resultados imediatos.
Segundo especialistas, isso leva corporações a interromperem programas cedo demais ou venderem participações antes do momento ideal, consolidando perdas em vez de capturar ganhos de longo prazo.
A dependência excessiva da estrutura corporativa também aparece como um obstáculo importante. CVCs sem autonomia enfrentam burocracia, lentidão e decisões influenciadas por interesses internos, o que reduz competitividade na disputa por startups promissoras.
Além disso, muitos fundos corporativos falham na construção de portfólio. Diferentemente do venture capital tradicional, que aposta em grande diversificação sabendo que poucos investimentos gerarão retornos exponenciais, algumas corporações realizam poucos aportes esperando resultados lineares.
Sem volume adequado e sem estratégia de follow-on, a probabilidade de sucesso diminui significativamente.
Outro desafio envolve o relacionamento entre corporações e startups investidas. Em alguns casos, a entrada de uma grande empresa no capital pode gerar resistência de concorrentes e outros investidores, reduzindo oportunidades comerciais e limitando o crescimento da startup.
Especialistas também alertam para o comportamento pró-cíclico dos CVCs. Muitas empresas investem em momentos de alta, pagando valuations elevados, e reduzem exposição justamente em períodos de baixa, quando surgem as melhores oportunidades de mercado.
Por fim, a falta de capacidade interna para transformar os aprendizados das startups em ganhos operacionais e estratégicos faz com que muitas corporações dependam apenas do retorno financeiro dos investimentos, cenário em que já competem em desvantagem com fundos especializados.
Para o mercado, o amadurecimento dos corporate venture capitals dependerá cada vez mais de governança independente, estratégia de longo prazo e capacidade real de integração entre inovação e operação corporativa.






















