A inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente nas empresas brasileiras, mas a aquisição de ferramentas representa apenas uma parte do processo de transformação. Dados da pesquisa TIC Empresas, divulgada pelo Cetic.br em junho de 2026, mostram que a proporção de companhias que utilizam IA no país passou de 13% em 2024 para 17% em 2025. Entre as grandes empresas, o índice chegou a 50%.
Com a maior disponibilidade da Tecnologia, o desafio começa a se concentrar na preparação das equipes. Para Bruno Omeltech, administrador, contador e especialista em gestão de pessoas, muitas empresas avançaram na contratação de soluções de IA antes de preparar os profissionais para incorporá-las à rotina.
“A inteligência artificial ficou mais acessível. O desafio agora é fazer com que as pessoas saibam onde ela realmente gera valor. Comprar a ferramenta é rápido. Mudar hábitos, preparar lideranças e desenvolver novas competências exige um processo muito mais profundo”, afirma.
Acesso à IA não garante aumento imediato de produtividade
A expansão da tecnologia também alcança empresas de menor porte. Segundo o Cetic.br, entre companhias com 10 a 49 pessoas ocupadas, o uso de inteligência artificial passou de 10% para 15% entre 2024 e 2025.
No entanto, ter acesso às ferramentas não significa necessariamente obter ganhos imediatos de produtividade. O Work Trend Index 2026, da Microsoft, ouviu 20 mil profissionais que utilizam IA em dez países, incluindo o Brasil, e apontou que fatores organizacionais, como cultura, apoio das lideranças e desenvolvimento de talentos, têm peso duas vezes maior no impacto relatado da tecnologia do que o esforço individual isolado.
O levantamento também indica que apenas 26% dos entrevistados consideram que a liderança de suas organizações está clara e consistentemente alinhada em relação ao uso da inteligência artificial.
Na prática, profissionais que possuem acesso às mesmas ferramentas podem utilizá-las de maneiras muito diferentes. Enquanto alguns incorporam a tecnologia à análise de dados, produção de documentos, atendimento e planejamento, outros permanecem limitados a aplicações pontuais por não saberem quais processos podem ser modificados ou quais cuidados devem ser adotados.
“Entregar uma ferramenta sem mudar a forma de trabalhar pode simplesmente acrescentar mais uma plataforma à rotina. Para gerar produtividade, a empresa precisa mostrar onde a IA entra no processo, quais problemas pode resolver, como os resultados serão avaliados e onde a decisão continua sendo humana”, explica Bruno.
Cultura organizacional passa a influenciar adoção
A utilização da IA também coloca as lideranças no centro da transformação. Gestores que não compreendem o potencial da tecnologia têm mais dificuldade para orientar suas equipes e identificar processos que podem ser redesenhados.
Por isso, a adoção da inteligência artificial deixou de ser uma questão exclusiva dos departamentos de tecnologia. Áreas como comercial, financeiro, atendimento, recursos humanos, comunicação e gestão já utilizam ferramentas capazes de pesquisar informações, produzir documentos, organizar dados e automatizar tarefas.
Na avaliação de Bruno, considerar a implantação da IA apenas como uma decisão tecnológica pode limitar os resultados.
“Quando a inteligência artificial entra na empresa, ela muda processos, responsabilidades e até a maneira como algumas decisões são tomadas. Por isso, não é um projeto apenas de tecnologia. É também um projeto de pessoas e liderança”, afirma.
Capacitação precisa acompanhar evolução tecnológica
À medida que a IA assume novas funções, a necessidade de treinamento também tende a aumentar. Em março de 2026, a McKinsey destacou a importância de transformar aprendizagem e desenvolvimento em uma atividade integrada à rotina profissional.
A consultoria cita uma estimativa do Fórum Econômico Mundial segundo a qual 59% da força de trabalho mundial precisará de treinamento até 2030.
Nesse contexto, capacitar funcionários para trabalhar com IA vai além de ensinar o funcionamento de determinadas ferramentas. É necessário desenvolver habilidades para formular problemas, verificar informações, identificar erros, avaliar riscos e decidir quais atividades podem ou não ser delegadas à tecnologia.
“Treinamento em inteligência artificial não pode ser uma aula isolada sobre como escrever comandos. As ferramentas mudam muito rápido. O que precisa permanecer é a capacidade das pessoas de aprender, questionar, testar e aplicar a tecnologia aos problemas reais da empresa”, afirma Bruno.
A velocidade das mudanças também exige atualização constante. Treinamentos realizados apenas uma vez por ano podem perder efetividade diante da evolução das ferramentas e dos novos recursos incorporados aos ambientes corporativos.
Preparação humana se torna parte do investimento
A popularização da inteligência artificial reduziu uma das principais barreiras para a adoção da tecnologia: o acesso às ferramentas. Ao mesmo tempo, aumentou a importância de outro investimento, relacionado à preparação das pessoas que irão utilizá-las.
Para Bruno, essa preparação pode determinar a diferença entre simplesmente implementar IA e conseguir resultados concretos.
“A tecnologia pode ser contratada em poucos minutos. Construir uma cultura em que as pessoas saibam usar inteligência artificial com propósito leva mais tempo. O custo que muitas empresas ainda não colocaram na conta é o da preparação humana”, afirma.
Com a expansão da IA nos negócios, a produtividade passa a depender da combinação entre tecnologia, processos, liderança e qualificação profissional. As ferramentas estão mais acessíveis, mas transformá-las em resultados exige empresas preparadas e profissionais capazes de aprender continuamente.






















