A busca por maior eficiência na previdência privada tem levado gestoras a desenvolver estruturas capazes de aproximar fundos previdenciários de estratégias tradicionalmente utilizadas em multimercados. Um exemplo é o K10 Prev XP Seg, estruturado em 2021 pela Kapitalo Investimentos.
Em cinco anos de operação, o fundo registrou correlação de 0,9953 com o K10 FIC MM, apesar das diferenças regulatórias entre os veículos. O produto também foi reconhecido como Melhor Fundo de Previdência Multimercado na edição 2026 da premiação Outliers InfoMoney.
A estrutura foi desenvolvida por Rodrigo Cavenaghi, sócio-executivo da Kapitalo responsável pela arquitetura de produtos da gestora. Segundo ele, o principal desafio foi preservar as características da estratégia original dentro das regras específicas aplicadas aos fundos de previdência.
Restrições regulatórias
Os Fundos de Investimento Especialmente Constituídos (FIEs), que recebem recursos de planos PGBL e VGBL, estão sujeitos a limites específicos para operações com derivativos, exposição cambial e utilização de margem.
Entre as regras estão a limitação da margem requerida a 15% da posição em determinados ativos e restrições aos prêmios de opções. Essas condições podem dificultar a reprodução integral de estratégias desenvolvidas originalmente para fundos multimercado.
“A pergunta não era quanto da estratégia daria para levar, era como não deixar nada para trás”, afirma Cavenaghi. Segundo ele, a solução foi encontrada principalmente na estruturação do produto, e não apenas na composição da carteira.
Cinco anos de resultados
Para avaliar o nível de aderência entre as duas estratégias, foram comparadas as cotas diárias do K10 Prev XP Seg e do K10 FIC MM entre 23 de junho de 2021 e 30 de julho de 2026. A análise considerou 1.283 observações extraídas da base Comdinheiro.
A correlação dos retornos diários foi de 0,9953, enquanto o tracking error anualizado ficou em 0,65%. Em 45% dos pregões, a diferença de retorno entre os fundos foi inferior a 0,01 ponto percentual. Em 86% dos dias, a diferença ficou abaixo de 0,05 ponto percentual.
A volatilidade do fundo previdenciário correspondeu a 97,7% da registrada pela estratégia original. No período analisado, o K10 Prev acumulou retorno de 96,33%, ante 96,01% do fundo de referência.
A diferença máxima entre as trajetórias acumuladas foi de 1,16 ponto percentual, enquanto a diferença média ficou em 0,23 ponto percentual.
Os fundos, porém, possuem estruturas de taxas diferentes. Para Cavenaghi, os dados indicam que a adaptação da estratégia não resultou em redução relevante do retorno acumulado.
Tributação influencia resultado no longo prazo
Além das características de gestão, a tributação é outro fator que diferencia os fundos previdenciários dos multimercados tradicionais.
Cavenaghi e Kauê Andrade Mamed, coordenador jurídico da Kapitalo, analisaram em estudo ainda em processo de submissão para publicação a evolução das regras aplicadas à previdência complementar aberta e seus efeitos sobre a reprodução de estratégias de investimento.
Em uma simulação separada, os autores avaliaram o impacto da tributação sobre o patrimônio ao longo de 20 anos. Mantida a mesma rentabilidade bruta, o FIE apresentou patrimônio líquido aproximadamente 33% superior ao de um multimercado comum.
A diferença está relacionada ao momento da cobrança do imposto de renda. Nos fundos sujeitos ao come-cotas, o imposto é antecipado semestralmente. Nos FIEs, a cobrança ocorre no resgate e pode chegar a 10% para recursos mantidos por mais de dez anos, conforme a tabela regressiva.
O efeito do diferimento permite que uma parcela maior dos recursos permaneça investida durante o período, ampliando a base sobre a qual incidem os juros compostos.
A vantagem tributária, entretanto, não elimina as limitações regulatórias dos fundos previdenciários, que continuam sujeitos a regras específicas para derivativos, margem e investimentos no exterior.
Mudanças na regulamentação
O arcabouço regulatório da previdência passou por sucessivas alterações nas últimas duas décadas. A Resolução CMN nº 3.308/2005 estabeleceu regras importantes para os fundos destinados à previdência complementar aberta.
Posteriormente, a Resolução CMN nº 4.444/2015 promoveu mudanças nos limites de investimento e elevou de 49% para 70% o limite de renda variável para PGBL e VGBL. A norma também estabeleceu o parâmetro de 15% para margem requerida, posteriormente mantido na regulamentação vigente.
Outra mudança foi a substituição gradual da lógica de proibição de alavancagem por um modelo baseado em limites de margem, acompanhando alterações no ambiente regulatório do mercado de capitais.
O estudo também identifica pontos que, na avaliação dos autores, poderiam ser aperfeiçoados, especialmente em relação às restrições para aquisição de determinados ativos de empresas ligadas às seguradoras responsáveis pelos planos.
A proposta é que mecanismos de governança, controles internos e independência da gestão possam ser considerados na avaliação de possíveis conflitos de interesse.
Estrutura busca reduzir diferenças entre fundos
O K10 é um fundo macro lançado em 2018, com estratégia baseada na análise de cenários econômicos globais e de commodities. O K10 Prev foi estruturado para reproduzir essa exposição dentro das regras aplicáveis aos produtos de previdência.
A arquitetura utiliza uma combinação de diferentes fundos-mestre (masters), permitindo que os veículos destinados aos investidores (feeders) adquiram cotas de mais de um master. Dessa forma, a exposição pode ser ajustada por meio da composição das cotas, em vez da distribuição direta de cada operação entre os diferentes veículos.
A estrutura também busca reduzir a necessidade de rateio de ordens entre carteiras, diminuindo uma possível fonte de divergência entre fundos que seguem a mesma estratégia.






















