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Lições do Vale do Silício: Especialistas apontam aprendizados valiosos

Mais de um ano de pandemia, empresas de tecnologia nunca precisaram tanto dos seus cérebros e ideias para continuar inovando e criando soluções em um mundo que mudou rapidamente.

Nesses últimos meses, o contato pessoal teve que ser mínimo, mas nunca as soluções “além da caixa” foram tão valiosas.

E, segundo especialistas, a busca por esses resultados foi o motor das empresas e pessoas que trabalham no Vale do Silício, na Califórnia (EUA), maior polo industrial em inovação e tecnologia que existe na atualidade.

Pesquisas sugerem que a busca de soluções para amenizar os impactos da pandemia será cada vez mais necessária.

No Brasil, a cultura em relação a importância da inovação para a sobrevivência dos negócios também vem crescendo. Segundo pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) realizada em 2021, 83% das empresas acreditam que investir na área será vital na pós-pandemia.

Esse número vem se consolidando desde o início da década de 2010. Em 2012, haviam 2.519 startups cadastradas na Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Em apenas cinco anos, o número saltou para 5.147, mais que o dobro.

Se já naquela época, criar soluções tecnológicas tinha uma importância fundamental para o avanço da economia e do mercado como um todo, agora, isso fica ainda mais evidente.

E trata-se de dominar um mundo que “está começando do zero”, ou em “renascimento”, como define Natasha de Caiado Castro, CEO da Wish International.

“O mundo está recomeçando, vivemos uma oportunidade única, de mudarmos para melhor, mas com uma bagagem importante, de conhecimento e com a maturidade que adquirimos até aqui. Estar no local mais disruptivo do globo, convivendo com as pessoas mais engajadas em causas, e que dominam as tecnologias mais revolucionárias é inspirador. Testemunhar a história é revolucionário. Muitos dos cérebros mais criativos estão aqui, com pessoas que naturalmente questionam e mudam o status quo no nosso dia a dia”, considera ela.

Networking e Generosidade

Para Natasha, trazer sua empresa, a Wish International, para o Vale foi recolocar a companhia como uma ponte entre os clientes dentro desse ecossistema que é inovador, segundo a executiva.

“Há mais de 20 anos, quando eu estudava em Berkeley, vi a generosidade nas trocas de informações, no networking, característica principal que nasceu com a vinda da família Stanford para o Oeste, bem relacionada no universo político e econômico. Como eles criaram um ambiente de diversidade, fundando uma universidade sem ensino religioso e aceitando mulheres, trouxeram espíritos livres, como dos fundadores da HP e todos que vieram na sequência. Nosso objetivo na Wish é ajudar a conectar os pontos, achar os caminhos e soluções”, diz a CEO da empresa especializada nos segmentos de MICE – Meetings, Incentives, Conventions and Exhibitions – e IDX – Innovation and Disruptive Experience.

Imunização com sopro de vida

“Estamos com 85% de vacinados agora, imunização de rebanho de verdade e com capacidade de ajudar quem precisa. Com isso, já estamos reabrindo o mundo e conseguimos ver o futuro no nosso dia a dia, sem máscaras, sem medos”, aposta Natasha.

Os “pequenos prazeres” da vida, como define a empresária, estão ganhando a importância que tiveram em outros momentos de situações extremas. A pandemia pela qual acabamos de passar é um deles, aponta ela. As relações pessoais ou networking, que ficaram de lado por tantos meses, agora são prioridade.

“Recentemente estive com cinco amigas em uma mesa novamente e conseguimos perceber como aquele momento do reencontro e das interações sociais era histórico e importante. Trabalhamos em diferentes setores e, como mulheres, representamos parte dessa revolução em lideranças das empresas. Mas estávamos lá falando também de outros assuntos. Precisamos do networking para trabalhar, mas também das relações sociais como um tudo, em nossa vida. E é esse momento que estamos vivendo, da redescoberta das relações pode ser uma chance para recomeçar de uma outra forma, melhor”, finaliza.

Capital intelectual e reinvestimento

Bret Waters, professor de empreendedorismo em Stanford e investidor profissional em diversos segmentos de negócios, concorda com Natasha, da Wish: a capacidade dos agentes que trabalham no Vale do Silício de se reinventar ensina a importância da “cultura do reinvestimento”.

“Reinvestimento de capital financeiro e reinvestimento de capital intelectual. Aconteceu quando Leland Stanford decidiu pegar todo o dinheiro que ganhou como empresário e investi-lo na criação de uma grande universidade. Aconteceu quando um garoto de 16 anos chamado Steve Jobs ligou para Bill Hewlett (da HP) e pediu algumas peças de reposição e um emprego”, exemplifica.

Aconteceu quando os fundadores do PayPal pegaram os US $1,5 bilhão que conseguiram do eBay e, em vez de se aposentar, financiaram e/ou fundaram o Yelp, LinkedIn, Tesla, Facebook, SpaceX e um monte de outras empresas”.

Para ele, essa ‘reciclagem do capital’ e a mentalidade de crescimento contínuo, de reutilizar o capital e não acumulá-lo apenas em grandes fortunas é uma visão que será cada vez mais importante em um mundo como o de agora, em que nos percebemos muito próximos e sabemos que a atitude de alguém do outro lado do globo também pode nos afetar.

“Todos no Vale do Silício hoje querem ganhar algum dinheiro e depois se tornar um investidor anjo. É essa cultura de reinvestimento que criou o motor econômico que é hoje”, constata.

Não há inovação sem “algum fracasso”

“O fracasso é aceito no Vale do Silício. Porque a inovação não acontece sem algum fracasso. Somente quando você desiste do medo do fracasso, a verdadeira inovação pode acontecer. (…) A grande empresa de empreendimentos Andreessen Horowitz está construindo um novo escritório em San Francisco e os sócios não terão mais escritórios designados, porque a expectativa agora é que todos trabalhem remotamente e só venham ao escritório de vez em quando.

Então, estamos entrando em um mundo “independente de locais”, onde não importa mais de onde você faz negócios. Isso é realmente um grande negócio”, elogia.

Mais rápido do que nunca

Não é só a capacidade de reinvenção que mostra a resiliência do Vale do Silício, como apontaram Natasha e Bret.

Para Edward Leaman, um dos maiores especialistas em branding do mundo e professor da Universidade de Stanford,a velocidade com que o Vale muda e se adapta de forma eficaz e inovadora, é o que permitiu que as empresas da região conseguissem continuar produzindo o que fazem de melhor.

“O Vale do Silício nunca parou durante o Covid-19. Reagiu à pandemia aumentando a velocidade da inovação, flexibilidade, adaptação e resiliência, trazendo para o presente o que parecia no futuro. O Vale do Silício possui uma incrível inteligência e visão sobre como criar um mundo melhorado por meio do empreendedorismo é um lugar que mantém a tensão em torno disso, recompensando a vitória incrivelmente bem”, analisa.

“É um ambiente totalmente aberto às possibilidades. Um lugar onde não existem fronteiras e limites para que inovações possam ser criadas através de empreendedores de coragem, trabalho árduo e energia. É realmente um ambiente de sistemas abertos para mudança e inovação”, conclui.

Construir com pessoas

Construir com o cliente e não para o cliente. Diversidade de pessoas e ideias. A abertura que as empresas do Vale do Silício sempre deram para todos, desde colaboradores até estudantes e empresários, é um dos alicerces que explicam o seu sucesso, afirma Felipe Lamounier, da Startse e Head de Operações internacionais, além de responsável de operações no Vale do Silício, China, Israel, Portugal, e outros países fora do Brasil.

“Vivo no Vale do Silício há seis anos e, basicamente nas últimas cinco décadas, tudo que impactou nossa vida, no sentido de tecnologia, foi criado aqui: desde computadores, até a primeira conexão da internet, smartphones, até tecnologias mais recentes como Facebook, Google, Arbn, Twitter, Uber, todas criadas aqui”, revela.

Simplicidade no dia a dia

“Eu sou formado em Computação, e aqui é a Meca da tecnologia. Todo mundo ligado a essa área quer estar e conviver com esse lugar, e estar entre os melhores do mundo nessa área. Antes de vir para cá, a minha cabeça era muito voltada para tecnologia, o que eu conseguiria desenvolver do ponto de vista tecnológico, técnico, hard skills, etc. e quando eu cheguei aqui o que mais me surpreendeu foi a forma como as pessoas, os empreendedores, pensam e agem. O que eu aprendi no Vale com as pessoas é envolver o cliente na construção do seu produto desde o primeiro dia, construindo junto com ele e fazendo melhorias incrementais a partir dos feedbacks posteriores à construção”, detalha.

Outro ponto, segundo ele, é a simplicidade: “Fazer melhorias incrementais a cada dia. A cada dia evoluir o seu produto, não pensar na solução pronta, trabalhar com o conceito de MVP, que é Minimum Viable Product. Aquilo que é minimamente viável para lançar, ou testar e colocar no mercado, é uma das coisas mais legais que eu fui impactado quando eu cheguei aqui. É que uma das primeiras pessoas que eu conheci foi o Reid Hoffman, fundador do Linkedin.

Hoje à frente de uma das maiores Venture Capital daqui do Vale do Silício, ele diz: se você tem vergonha da primeira versão do seu produto é porque você lançou o seu produto tarde demais. Esse é o mindset, (…) um dos grandes ensinamentos”, fundamenta.

Uma boa obsessão

“O Vale tem me ensinado a importância de ser obcecada por atingir uma experiência de cliente excepcional. Atingir isso passa por se reinventar o tempo inteiro tendo um growth mindset, uma atenção incrível aos detalhes e continuamente sonhar grande.

O Vale ensina que o impacto que você pode ter no mundo é uma função do nível de esforço que você e o seu time colocam ao longo de anos de estudo e dedicação para uma causa”, Mirelly Vieira de Moraes, CEO e cofundadora da Verbena Flores.

Nunca foi sorte

“Você pode achar que as histórias de Elon Musk, Jeff Bezos, ou outros empreendedores menos conhecidos, aconteceram por acaso ou por sorte. Mas não existe over night success, mágica ou sorte. Todas as histórias de sucesso ocorrem depois de anos de obstinação e dedicação pura a um objetivo. A grande vantagem do Vale é que ele agrega dezenas de milhares de pessoas com esse nível de work ethic e criatividade empresarial, criando um ambiente de alta performance e inovação onde essas conexões e sinapses se potencializam”, avalia Antônio Ermírio de Moraes Neto, CEO e cofundador da XP Health.

Pensar grande não é arrogância

“O Vale do Silício nos ensinou que pensar grande não é arrogância e que somos capazes de construir coisas incríveis. Aprendemos que há limite para a criatividade humana e isso só é possível porque aqui existem todos os recursos necessários para inovar. O Vale tem o mais poderoso ecossistema de empreendedorismo do mundo”, comenta Alexandre Hadade, CEO da Birdie, Board Member da Privalia e da Arizona, Endeavor Entrepreneur.

A diversidade de pensamentos e o ambiente de negócios também são pontos levantados pela palestrante Giuliana Hadade, da Betafly Brandmakers:

“Aqui o que mais importa é o que você está construindo e não qual roupa você usa, ou qual carro está dirigindo, ou o tamanho da sua conta bancária. A competição aqui é muito grande e lidar com a pressão é necessário para a saúde mental e física.

É o conjunto desses valores, explicitados por quem está no Vale, que faz deste local único no mundo, resume Natasha de Caiado Castro, da Wish International, empresa cuja missão é também unir esses cérebros.

“É um ambiente que une o que há de melhor no mundo em termos de negócio, inovação e tecnologia: diversidade, valores, ambiente de competição de alto nível e abertura para novas ideias e mentes. Não há nada parecido por aí e, por isso mesmo, há grandes lições a serem aprendidas”.

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