A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a elevar a cautela nos mercados financeiros internacionais e reacendeu preocupações com a inflação global. O avanço do conflito no Golfo Pérsico, aliado às ameaças de restrições à navegação no Estreito de Ormuz, impulsionou os preços do petróleo e aumentou a volatilidade dos ativos financeiros.
Segundo a economista e sócia-diretora da Oz Câmbio, Raíssa Florence, o cenário representa uma mudança importante na percepção dos investidores, que passaram a adotar uma postura mais defensiva diante das incertezas geopolíticas.
“O mercado voltou para um patamar de maior cautela. Ainda não é pânico, mas há um aumento claro da aversão ao risco, especialmente por causa do impacto potencial sobre energia e inflação. O petróleo já incorpora um prêmio geopolítico relevante, e isso tende a contaminar expectativas econômicas globais”, afirma.
Petróleo sobe com risco no Estreito de Ormuz
As tensões na região elevaram os preços do petróleo Brent, que chegou a ser negociado entre US$ 85 e US$ 87 por barril. O movimento reflete o receio de interrupções no fornecimento mundial da commodity, já que cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente passa pelo Estreito de Ormuz.
Além disso, o anúncio de novas restrições dos Estados Unidos ao comércio marítimo ligado ao Irã ampliou as incertezas sobre o abastecimento energético internacional, embora o governo norte-americano tenha recuado da proposta de cobrar pedágio sobre embarcações que utilizam a rota.
Inflação mais baixa nos EUA limita valorização do dólar
Apesar do aumento da aversão ao risco, a valorização do dólar tem sido limitada por indicadores econômicos dos Estados Unidos.
Dados recentes mostraram desaceleração da inflação norte-americana, com o índice de preços ao consumidor acumulando alta de 3,5% em junho. O resultado reduziu as expectativas de novos aumentos da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed), diminuindo a pressão de valorização da moeda americana.
Segundo Raíssa Florence, esse cenário cria forças opostas sobre o câmbio.
“Existe hoje uma disputa de forças sobre o dólar. De um lado, a guerra e a incerteza global aumentam a demanda por ativos seguros. Do outro, a inflação mais baixa nos Estados Unidos reduz a pressão por juros mais altos, o que enfraquece a moeda. Isso explica por que o câmbio não reage de forma automática ao cenário geopolítico”, explica.
Brasil pode enfrentar maior instabilidade
Na avaliação da economista, os reflexos para o Brasil tendem a aparecer principalmente por meio da volatilidade cambial e das expectativas econômicas.
Embora a valorização do petróleo possa favorecer parte da balança comercial brasileira, o ambiente de maior aversão ao risco pode reduzir o fluxo de investimentos para mercados emergentes.
“Para economias emergentes como o Brasil, o efeito é ambíguo. O aumento do preço das commodities pode ajudar a balança comercial, mas o ambiente global de risco tende a reduzir o apetite por ativos mais voláteis. O resultado é um câmbio mais instável e maior incerteza para os próximos meses”, afirma.
Conflito pode influenciar política monetária global
Segundo Raíssa Florence, o principal fator de atenção está na duração da crise e nos impactos sobre o mercado de energia.
Caso ocorram restrições prolongadas à navegação no Estreito de Ormuz, o aumento dos preços do petróleo poderá pressionar a inflação global por mais tempo, influenciando as decisões dos bancos centrais sobre juros.
“Se houver uma restrição prolongada ao fluxo no Estreito de Ormuz, o impacto deixa de ser pontual e passa a afetar a inflação global de forma mais consistente. Isso pode adiar cortes de juros e mudar o cenário monetário internacional”, conclui.






















