O varejo brasileiro enfrenta um cenário marcado por dois movimentos simultâneos: a elevada inadimplência de consumidores e empresas e a busca do setor por alternativas para estimular as vendas e fortalecer o relacionamento com os clientes. Nesse contexto, o crédito próprio vem ganhando espaço como uma das estratégias adotadas pelos varejistas.
Em maio de 2026, o Brasil registrou 83,5 milhões de consumidores inadimplentes, segundo dados da Serasa Experian. O número representa o maior patamar da série histórica. Em média, cada consumidor negativado concentrava cerca de quatro dívidas, com valor aproximado de R$ 6.877,23.
A inadimplência também afeta o setor empresarial. No mesmo mês, mais de 9 milhões de empresas estavam negativadas, acumulando R$ 229,9 bilhões em dívidas. Cada empresa inadimplente possuía, em média, sete contas em atraso, com dívida média de R$ 25.494,08.
Apesar das dificuldades, as vendas do comércio continuam apresentando crescimento moderado. De acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume de vendas do varejo acumulou alta de 1,7% nos primeiros cinco meses de 2026. Em 12 meses até maio, o avanço foi de 1,4%. Na comparação entre maio de 2026 e o mesmo mês do ano anterior, houve crescimento de 0,4%.
Nesse cenário, o crédito próprio passou a ser considerado não apenas uma alternativa para facilitar o pagamento, mas também uma ferramenta para estimular a recorrência das compras e ampliar o conhecimento sobre o perfil dos consumidores.
Segundo André Maniezo, executivo do setor de meios de pagamento, a evolução tecnológica tem contribuído para essa mudança. A análise de dados permite que os varejistas considerem um conjunto maior de informações antes de definir as condições de crédito oferecidas aos clientes.
Tecnologia transforma concessão de crédito
Tradicionalmente, o crédito próprio no varejo esteve associado aos cartões private label e aos cartões de loja. Com a digitalização dos serviços financeiros, porém, esse modelo passou a incorporar recursos de automação, análise de dados, inteligência artificial e integração de diferentes serviços.
O Open Finance também participa desse processo ao permitir, mediante autorização do cliente, o compartilhamento de informações financeiras entre instituições participantes. De acordo com o Banco Central, o sistema alcançou dezenas de milhões de contas conectadas. Em agosto de 2025, a autoridade monetária informou a existência de 103 milhões de autorizações ativas para compartilhamento de dados, envolvendo 68 milhões de contas.
A infraestrutura do sistema continua sendo atualizada. Em abril de 2026, o Banco Central publicou a versão 7.0 do Manual de Escopo de Dados e Serviços do Open Finance, com alterações nas especificações do ecossistema.
Para Maniezo, a utilização de dados e ferramentas tecnológicas pode tornar a avaliação de crédito mais precisa. A análise deixa de depender exclusivamente de informações tradicionais e passa a considerar também aspectos relacionados ao comportamento financeiro do consumidor.
A mudança, no entanto, não significa necessariamente ampliar indiscriminadamente a oferta de crédito. O desafio para o varejo é encontrar um equilíbrio entre a necessidade de estimular as vendas e a capacidade de pagamento dos consumidores.
Em um cenário de inadimplência elevada, a combinação entre dados, automação e análise de risco tende a ganhar importância nas decisões das empresas. A expectativa é que o avanço dessas ferramentas permita ao comércio desenvolver modelos de concessão mais adequados ao perfil de cada cliente, reduzindo riscos e, ao mesmo tempo, preservando oportunidades de consumo.






















