Vasco e Botafogo levaram ao gramado do Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, uma mensagem que ultrapassa a rivalidade esportiva. Na quarta-feira, 7 de outubro, os clubes promoveram uma ação conjunta pelo Outubro Rosa, com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia — Regional Rio de Janeiro (SBM-RJ), para ampliar a conscientização sobre o câncer de mama e a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento adequado.
A programação divulgada pelos clubes previa a entrada de 11 torcedoras de cada equipe, em remissão do câncer de mama e integrantes do programa Marque Esse Gol, ao lado dos atletas. A experiência também incluiu uma visita aos bastidores do estádio, permitindo às participantes conhecer a estrutura e acompanhar a preparação para a partida.
Dentro de campo, a campanha ganhou espaço nas faixas de capitão e nas bandeiras de escanteio, aproximando a mensagem de saúde do público que acompanhava o clássico.
Em depoimento à reportagem, Eduardo Bruno Giordano, representante da SBM-RJ, afirmou que a mobilização reuniu 25 pacientes. O número informado por ele se refere ao grupo reunido pela iniciativa, enquanto o comunicado dos clubes previa 22 torcedoras na entrada com os jogadores.
“Conseguimos reunir 25 pacientes para realizar o sonho de entrar com os jogadores no gramado e celebrar a cura do câncer”, declarou Giordano.
Brasil deve registrar 78,6 mil novos casos por ano
A mobilização ocorre diante de um cenário que exige atenção contínua. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil em cada ano do triênio 2026–2028. A projeção corresponde a uma taxa estimada de 71,57 casos novos para cada 100 mil mulheres.
Desconsiderados os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres brasileiras.
Embora o risco aumente com a idade, principalmente após os 50 anos, os casos entre mulheres com menos de 40 anos têm aumentado, segundo Pedro Exman, médico responsável pelo Grupo de Tumores de Mama e Ginecológicos do Centro Especializado em Oncologia, em entrevista à CNN Brasil.
A doença não tem uma causa única. Fatores hormonais e reprodutivos, hereditários, ambientais e comportamentais podem influenciar o risco. Segundo o INCA, aproximadamente 5% a 10% dos casos têm caráter hereditário, com alterações em genes como BRCA1 e BRCA2, entre outros.
A ausência de histórico familiar, portanto, não elimina a possibilidade de desenvolver a doença.
Diagnóstico aos 42 anos e uma mensagem às outras mulheres
Entre as participantes da ação estava Cristiana Oliveira, que recebeu o diagnóstico de câncer de mama aos 42 anos. Hoje, aos 49, e com aniversário de 50 anos em dezembro, ela está em remissão e compartilhou sua experiência para incentivar outras mulheres a manter o acompanhamento da saúde.
“Sou paciente oncológica há sete anos. Eu descobri o câncer com o toque, aquele toque que a gente faz no banho, de examinar a própria mama”, contou.
Segundo Cristiana, o tumor media 1,98 centímetro quando foi identificado. Ela relatou que realizava mamografias todos os anos e que, apesar do tamanho inferior a dois centímetros, o câncer era agressivo e havia atingido os linfonodos da região das axilas.
“Ele não tinha nem dois centímetros. E eu fazia o meu exame de mamografia todos os anos”, afirmou.
O tratamento incluiu a retirada total da mama e o esvaziamento axilar, procedimento de remoção de linfonodos da axila.
“Eu precisei fazer uma mastectomia radical, aquela retirada de toda a mama, com esvaziamento axilar”, relatou.
Ao participar da iniciativa no Nilton Santos, Cristiana também realizou o sonho de acompanhar de perto a entrada em campo de seu time do coração. A experiência se tornou uma oportunidade para transmitir um recado: a atenção à saúde não pode ficar restrita ao mês de outubro.
“A campanha Outubro Rosa veio para nos alertar sobre a conscientização. Mas eu venho dizer a vocês, amigas: o câncer é o ano todo”, disse.
“Não espere chegar a temporada do Outubro Rosa para fazer seu autoexame ou seus exames de rotina. Eu, Cristiana, amiga de vocês, não quero que vocês passem pela mesma coisa que eu passei.”
Conhecer as mamas e manter o acompanhamento
O relato de Cristiana destaca a importância de reconhecer alterações no próprio corpo e procurar avaliação profissional. A observação das mamas, porém, não substitui a mamografia nem os demais exames indicados conforme a idade, o histórico e o risco individual.
A reportagem também destacou estudos que apontam redução da mortalidade por câncer de mama com o rastreamento mamográfico regular, com estimativas entre 20% e 40%. Esses percentuais variam conforme a população e as condições avaliadas, e não representam uma garantia individual de resultado.
A SBM-RJ reforçou, durante a mobilização, a importância da conscientização e do acompanhamento adequado.
Identificar a doença precocemente e iniciar o tratamento apropriado aumenta as chances de um resultado favorável. Esse cuidado envolve acesso à avaliação, investigação de alterações suspeitas, exames e continuidade do atendimento.
Remissão e cura: uma distinção importante
Embora a celebração da cura tenha sido mencionada no depoimento de Giordano, remissão e cura não são termos equivalentes.
A remissão corresponde à redução ou ao desaparecimento dos sinais e sintomas da doença. Mesmo a remissão completa não significa, necessariamente, cura definitiva. Por isso, a condição de cada participante deve ser descrita de acordo com as informações de seu acompanhamento médico.
No caso de Cristiana, a condição informada à reportagem é de remissão.
A ação entre Vasco e Botafogo mostra como o futebol pode abrir espaço para informação e para a experiência de mulheres que passaram pelo tratamento. A mensagem levada ao estádio precisa continuar depois do apito final: o Outubro Rosa mobiliza, mas o cuidado deve permanecer durante todo o ano.
Reportagem: Kelly Couto
Créditos dos depoimentos e materiais da ação: Sociedade Brasileira de Mastologia — Regional Rio de Janeiro (SBM-RJ).
Fontes: Instituto Nacional de Câncer (INCA); comunicado dos clubes sobre a ação pelo Outubro Rosa; entrevista de Pedro Exman à CNN Brasil; depoimentos de Cristiana Oliveira e Eduardo Bruno Giordano.





















