A inteligência artificial deixou de ocupar apenas espaços experimentais na indústria automotiva e passou a integrar diferentes etapas da operação das montadoras. De ações de marketing a processos industriais, atendimento ao consumidor e sistemas de direção, a Tecnologia vem sendo incorporada por empresas que buscam aumentar eficiência, automatizar tarefas e utilizar dados para apoiar decisões.
Um dos exemplos mais conhecidos no Brasil ocorreu quando a Volkswagen utilizou inteligência artificial para recriar um encontro entre Elis Regina e Maria Rita em uma campanha relacionada às comemorações de seus 70 anos no país. O episódio chamou atenção pelo uso da tecnologia em publicidade, mas representa apenas uma das aplicações que vêm avançando no setor.
Segundo Matheus Miranda, CIO da IRRAH Tech, a utilização da IA pelas montadoras demonstra uma mudança estrutural na forma como a tecnologia participa das operações empresariais.
Nos últimos anos, a Volkswagen anunciou iniciativas envolvendo assistentes virtuais embarcados e sistemas de direção automatizada. A BMW, por sua vez, iniciou projetos para utilizar robôs humanoides equipados com recursos de inteligência artificial em linhas de produção na Europa.
A Stellantis, grupo que reúne marcas como Jeep, Fiat, Peugeot e Citroën, também estabeleceu uma parceria de longo prazo com a Microsoft para desenvolver iniciativas baseadas em inteligência artificial.
Tecnologia ganha espaço nas empresas brasileiras
No Brasil, a inteligência artificial também passou a ocupar posição mais relevante nas estratégias corporativas. Uma pesquisa realizada pela Meta em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), com mais de 100 líderes de empresas brasileiras e multinacionais de 20 setores, mostrou que 82,5% dos executivos entrevistados consideram a tecnologia relevante para seus negócios.
Apesar disso, a pesquisa aponta que a adoção ainda enfrenta obstáculos. Segundo o levantamento, 43,3% das organizações destinam menos de 1% de seus orçamentos para iniciativas de inteligência artificial. A falta de conhecimento especializado foi apontada por 42,7% dos participantes como a principal barreira para ampliar o uso da tecnologia.
Também aparecem entre os desafios a integração com sistemas já existentes, os custos de implementação, além de questões relacionadas à segurança e à conformidade.
Para Miranda, esse cenário faz com que muitas empresas recorram a soluções disponíveis no mercado em vez de desenvolver sistemas próprios. A estratégia pode reduzir a necessidade de grandes equipes especializadas e acelerar a implementação de recursos de IA.
Da automação ao atendimento
A expansão da inteligência artificial também modifica áreas tradicionalmente dependentes de interação humana, como atendimento e relacionamento com clientes.
Soluções baseadas em IA podem ser integradas a diferentes canais digitais e utilizadas para consultar informações, responder dúvidas, organizar dados e automatizar etapas do atendimento. A possibilidade de conectar essas ferramentas a sistemas corporativos permite que a tecnologia seja utilizada em diferentes momentos da relação entre empresa e consumidor.
A mudança representa uma evolução em relação aos primeiros chatbots, geralmente limitados a respostas pré-programadas e tarefas específicas. Com sistemas capazes de processar informações de diferentes fontes, as empresas passam a utilizar a tecnologia em fluxos mais amplos de operação.
IA chega à produção industrial
No setor automotivo, uma das transformações mais relevantes ocorre dentro das próprias fábricas. O desenvolvimento de robôs e sistemas capazes de interpretar informações e executar tarefas amplia as possibilidades de automação das linhas de produção.
A utilização de inteligência artificial pode apoiar processos de inspeção, manutenção, logística interna e controle de qualidade. Em conjunto com sensores, robótica e análise de dados, a tecnologia permite acompanhar operações industriais em tempo real e identificar padrões que podem auxiliar na tomada de decisões.
A adoção, entretanto, exige investimentos em infraestrutura, qualificação profissional e integração com sistemas já utilizados pelas empresas.
Mudança exige profissionais especializados
A falta de conhecimento técnico aparece como um dos principais obstáculos para a expansão da IA. Isso significa que, além da aquisição de ferramentas, as empresas precisam desenvolver profissionais capazes de compreender as possibilidades e limitações da tecnologia.
O desafio envolve não apenas especialistas em programação e inteligência artificial, mas também trabalhadores de diferentes áreas que precisarão incorporar essas ferramentas às atividades cotidianas.
Na indústria automotiva, essa transformação ocorre simultaneamente em diferentes frentes: desenvolvimento de veículos, produção, atendimento, marketing, logística e análise de dados.
A tendência indica que a inteligência artificial deverá deixar de ser tratada apenas como uma ferramenta complementar e passar a fazer parte da infraestrutura digital das empresas. Para as montadoras, isso significa integrar a tecnologia aos processos existentes sem perder de vista questões como segurança, confiabilidade, proteção de dados e qualificação das equipes.






















