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Capital para empresas em crise supera recursos de private equity no Brasil

Fundos de special situations alcançam R$ 17,4 bilhões disponíveis, acima dos R$ 14,6 bilhões dos veículos tradicionais, em meio a juros elevados e maior pressão financeira sobre empresas

Taysa Medeiros por Taysa Medeiros
20/08/2026
em Economia
Tempo de leitura: 5 minutos
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O mercado brasileiro de investimentos passa por uma mudança na composição dos recursos disponíveis. Pela primeira vez, fundos de special situations, voltados a empresas em dificuldades financeiras, reestruturações e ativos estressados, passaram a concentrar mais capital disponível do que os fundos tradicionais de private equity, segundo levantamento da Spectra.

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Em junho de 2026, os fundos de special situations somavam R$ 17,4 bilhões em recursos disponíveis para investimentos, enquanto os fundos de private equity reuniam R$ 14,6 bilhões. A diferença de R$ 2,8 bilhões ocorre em um cenário marcado por juros elevados, crédito mais caro e aumento da pressão financeira sobre as empresas.

O movimento indica uma mudança nas oportunidades identificadas pelos investidores. Enquanto o private equity tradicional busca empresas com potencial de expansão e geração de valor, os fundos de special situations concentram-se em negócios que enfrentam dificuldades financeiras e precisam de capital, renegociação de dívidas ou reorganização de ativos.

Juros elevados pressionam empresas

A mudança ocorre após um período prolongado de juros altos no país. A Selic chegou a 15% ao ano em junho de 2025 e permaneceu nesse patamar até o início de 2026. Desde então, começou a recuar gradualmente, chegando a 14% em agosto.

Apesar da redução, o custo do crédito permanece elevado para empresas que precisam captar recursos, financiar investimentos ou renegociar dívidas.

Dados da Serasa Experian citados no levantamento mostram que 9 milhões de CNPJs estavam negativados em maio de 2026. As empresas acumulavam R$ 229,9 bilhões em dívidas, também em níveis recordes. Em média, cada companhia inadimplente possuía quase sete dívidas em atraso.

O número de recuperações judiciais também aumentou. Em 2025, 2.466 empresas entraram nesse processo, o maior volume registrado pela Serasa Experian desde o início da série histórica.

Ler  Inadimplência atinge maior nível em 12 anos e exige revisão de estratégias de cobrança

Esse cenário combina endividamento, custo financeiro elevado e dificuldade de acesso a novas fontes de capital, aumentando a procura por alternativas para preservar caixa e reorganizar estruturas financeiras.

Cresce o espaço para special situations

Os fundos de special situations atuam justamente nesse ambiente. As estratégias podem envolver aquisição de dívidas, compra de ativos, renegociação de passivos ou aporte de recursos em empresas que precisam reorganizar sua estrutura financeira.

Para os investidores, uma das possibilidades está na aquisição de ativos que perderam valor em razão do estresse financeiro e que podem recuperar parte desse valor após processos de reestruturação.

Segundo Victor Mariz Taveira, economista e CEO da Acrux Capital, a inversão entre os recursos destinados às duas categorias de fundos representa uma mudança na natureza das oportunidades existentes no mercado.

“A inversão entre os dois mercados é simbólica porque mostra uma mudança importante na natureza das oportunidades que o mercado está produzindo”, afirma.

Na avaliação do executivo, o cenário não significa que o capital destinado ao crescimento tenha desaparecido, mas mostra que uma parcela maior dos investidores passou a buscar retorno em operações relacionadas à recuperação e à reorganização de empresas.

O número de gestoras com estratégias voltadas a situações especiais também aumentou. De acordo com os dados da Spectra, eram cinco em 2015 e passaram a 57 em 2026.

Crédito empresarial mais caro

O custo do crédito é um dos fatores apontados para explicar a mudança. Segundo dados citados por Mariz Taveira, a taxa média do crédito livre para empresas passou de 13,8% ao ano em fevereiro de 2021, quando a Selic estava em 2%, para 25,2% ao ano em maio de 2026.

A diferença altera a viabilidade de projetos de expansão, aquisições e investimentos. Além disso, o impacto alcança operações de capital de giro, estoque, antecipação de recebíveis e refinanciamento de dívidas.

Uma empresa pode continuar apresentando resultados operacionais positivos e, ainda assim, enfrentar dificuldades para sustentar sua estrutura financeira quando o custo da dívida cresce em ritmo superior à capacidade de geração de caixa.

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“Uma empresa que em 2021 analisava um novo projeto diante de um custo financeiro próximo de 14% hoje precisa fazer a mesma conta com dinheiro custando aproximadamente 25%”, explica o economista.

Pressão financeira pode gerar novas oportunidades

O aumento do custo do dinheiro também pode transformar problemas inicialmente relacionados à liquidez em dificuldades de solvência. Uma dívida de R$ 100, por exemplo, financiada a uma taxa de 25% ao ano e sem amortização chegaria a aproximadamente R$ 156 após dois anos e R$ 195 após três anos.

Nesse contexto, empresas que permanecem operacionalmente viáveis podem precisar de uma reestruturação financeira para continuar suas atividades.

“Dívida tem uma característica particularmente cruel: ela capitaliza. O problema de liquidez de hoje rapidamente pode se transformar em problema de solvência amanhã”, afirma Mariz Taveira.

É justamente nesse ponto que operações de special situations podem ganhar relevância, ao oferecer alternativas de capital para companhias que perderam acesso às fontes tradicionais de financiamento.

Impacto vai além do mercado financeiro

O crescimento dessa modalidade de investimento também pode ser interpretado como um indicador das condições enfrentadas pela economia real.

O aumento do capital destinado à recuperação de empresas não significa, por si só, uma redução dos investimentos em negócios com potencial de crescimento. O private equity continua sendo uma fonte de recursos para expansão, aquisições e profissionalização de empresas.

A mudança está na quantidade de recursos disponíveis para situações de estresse e no aumento da demanda por soluções financeiras diante do ambiente de crédito mais restritivo.

Para Mariz Taveira, a política fiscal também influencia esse cenário. Na avaliação do economista, déficits persistentes e dúvidas sobre a trajetória da dívida pública podem elevar o prêmio exigido pelos investidores e dificultar uma redução mais rápida dos juros.

“A Selic elevada é necessária para combater a inflação e manter as expectativas ancoradas, mas não podemos olhar apenas para a política monetária. É aí que entra a política fiscal”, afirma.

Capital muda de direção

Com a taxa básica de juros em patamar elevado, investimentos de menor risco passam a competir com projetos empresariais que apresentam maior risco, prazo mais longo e menor liquidez.

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Nesse ambiente, parte do capital pode migrar para títulos públicos, operações de crédito e estruturas com garantias, enquanto investimentos diretamente relacionados à expansão de empresas enfrentam maior dificuldade para alcançar retornos capazes de compensar o custo financeiro.

“O capital se desloca, sai do equity e migra para crédito. Sai do crescimento e migra para estruturas com garantias”, diz o executivo.

A inversão entre special situations e private equity, portanto, pode ser observada como um reflexo das condições atuais do mercado de capitais. Ao mesmo tempo em que representa a consolidação de uma modalidade de investimento especializada em reestruturações, também evidencia a quantidade de empresas que enfrentam dificuldades para acessar recursos em um ambiente de juros elevados.

“O problema não é o crescimento da indústria de special situations. O problema é que a economia está produzindo tantas special situations”, afirma Mariz Taveira.

Para o executivo, a redução estrutural do custo de capital dependeria de condições macroeconômicas mais favoráveis, incluindo maior previsibilidade fiscal e inflação controlada.

Enquanto isso, o mercado de special situations tende a continuar encontrando oportunidades em empresas que precisam reorganizar suas finanças. O fenômeno mostra que o capital permanece disponível, mas também revela uma mudança na direção dos recursos: uma parcela crescente está sendo destinada à recuperação e reestruturação de negócios, em vez de financiar exclusivamente novos ciclos de expansão.

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Tags: economia brasileiraempresasendividamentojurosmercado financeiroRecuperação Judicialreestruturaçãoselic
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Taysa Medeiros

Taysa Medeiros

Taysa Medeiros é auxiliar de edição e colaboradora do portal Capital Econômico, integrando a equipe de redação sob a supervisão de Kayene Simão. Apaixonada por informação e narrativas que conectam, nas horas livres, ela cultiva dois grandes hobbies: dançar e ler, combinações que traduzem bem sua energia criativa e sensibilidade editorial.

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