O avanço da inteligência artificial já provoca mudanças na produção de novas tecnologias e na forma como empresas estruturam suas estratégias de propriedade intelectual. Dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO) mostram que as famílias de patentes relacionadas à inteligência artificial generativa passaram de aproximadamente 14 mil em 2023 para mais de 37 mil em 2025, um crescimento de cerca de 164% em dois anos.
Os anos de 2024 e 2025, juntos, registraram mais pedidos de patentes relacionadas à IA generativa do que toda a década anterior, segundo os dados apresentados pela futurista Martha Gabriel durante o Encontro Global de Inovação e Propriedade Intelectual – ABPI 2026, realizado no Rio de Janeiro.
A expansão está relacionada ao aumento das aplicações da inteligência artificial em diferentes etapas do desenvolvimento tecnológico. A ferramenta já pode participar de processos que envolvem ideação, design, programação, pesquisa científica e desenvolvimento de produtos.
Mais invenções, novos desafios
A participação crescente da IA na criação de tecnologias também torna mais complexa a definição da contribuição humana em uma invenção.
Com ferramentas capazes de gerar códigos, imagens, projetos e diferentes alternativas para um mesmo problema, empresas e pesquisadores precisam avaliar como registrar e proteger os resultados obtidos com auxílio da Tecnologia.
Outro efeito é a redução do custo para testar ideias. A possibilidade de experimentar rapidamente diferentes soluções pode aumentar o número de projetos desenvolvidos e, consequentemente, provocar uma hiperprodução de pedidos de patentes.
Esse movimento tende a elevar a competição entre empresas e aumentar a importância da gestão estratégica da propriedade intelectual.
Dados e algoritmos ganham importância
Nesse novo cenário, ativos como dados, softwares, algoritmos e modelos de inteligência artificial passam a ocupar uma posição cada vez mais relevante nas estratégias empresariais.
A proteção desses ativos, entretanto, não precisa necessariamente ocorrer por meio de patentes. Dependendo das características de cada tecnologia e da estratégia adotada pela empresa, informações podem ser mantidas como segredo comercial, enquanto outros elementos podem ser protegidos por patentes, contratos de licenciamento ou outras formas de propriedade intelectual.
A avaliação apresentada durante o evento também destaca que elementos como algoritmos, conjuntos de dados, prompts, fluxos de trabalho e pesos de modelos podem, em determinadas situações, ser mais adequadamente protegidos por mecanismos de confidencialidade.
Autoria também entra no debate
A expansão da produção de conteúdo e de tecnologias com auxílio de IA cria ainda novos questionamentos sobre autoria, identidade, imagem e origem das informações.
A multiplicação de conteúdos sintéticos dificulta, em alguns casos, determinar como e por quem determinado material foi produzido, além de ampliar as discussões sobre a participação humana necessária para caracterizar uma criação ou invenção.
Diante desse cenário, a inteligência artificial não apenas aumenta o volume de inovação, mas também exige que empresas revisem a maneira como identificam, registram e protegem seus ativos intelectuais.
A tendência é que a propriedade intelectual passe a combinar diferentes mecanismos de proteção, de acordo com o tipo de tecnologia, o grau de participação humana e os interesses estratégicos de cada organização.






















