A intensificação da disputa entre Estados Unidos e China tem provocado mudanças na Economia global e alterado estratégias comerciais, industriais e geopolíticas. Segundo o engenheiro Beny Fard, cofundador da B8 Partners, analista internacional e autor do livro Tempocracia: O Ocidente em Desvantagem no Século da Paciência, as recentes decisões do governo norte-americano fazem parte de uma estratégia de reposicionamento diante da ascensão chinesa e da reorganização das cadeias globais de produção.
De acordo com o especialista, desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, medidas como a imposição de tarifas comerciais, o endurecimento das relações com aliados, a ampliação da disputa por minerais estratégicos e ações militares no Oriente Médio integram uma estratégia mais ampla voltada à preservação da influência econômica e política do país.
Diferença no planejamento estratégico
Na avaliação de Beny Fard, um dos fatores centrais dessa disputa é a diferença entre o horizonte de planejamento das democracias e o dos regimes autocráticos.
“Os Estados Unidos sabem que estão correndo contra o tempo. Enquanto uma democracia troca de liderança a cada quatro anos, países como China, Rússia e Irã constroem estratégias pensando em décadas. Essa diferença de horizonte é uma das grandes disputas do século e ajuda a explicar a urgência que voltou a marcar a política externa americana”, afirma.
Segundo o autor, essa diferença ajuda a explicar a postura mais rígida de Washington em temas ligados ao comércio internacional, segurança, tecnologia e energia.
Minerais estratégicos ganham protagonismo
O especialista destaca que a atual disputa internacional vai além das questões militares e ideológicas. O foco passou a incluir o controle de recursos considerados estratégicos para setores como tecnologia, defesa, inteligência artificial e mobilidade elétrica.
Entre esses recursos estão as chamadas terras raras, grupo de minerais utilizados na fabricação de baterias, semicondutores, equipamentos de comunicação, turbinas e sistemas de defesa.
Segundo Beny Fard, a posição dominante da China na produção e no processamento desses minerais aumentou a preocupação de governos e empresas com a segurança das cadeias de suprimentos, especialmente após a pandemia de covid-19 e os conflitos internacionais dos últimos anos.
Nesse cenário, conceitos como nearshoring — transferência da produção para países geograficamente próximos — e friendshoring — deslocamento das cadeias produtivas para países politicamente alinhados — passaram a orientar decisões de investimento e políticas industriais.
“O mundo passou a tratar segurança de abastecimento, estabilidade política e controle de recursos críticos como variáveis tão importantes quanto custo e eficiência. Países e empresas que entenderem essa mudança antes tendem a ocupar posições melhores nas novas cadeias globais”, afirma.
Brasil pode ampliar participação
Para o analista, o Brasil reúne condições para assumir papel mais relevante na reorganização da economia mundial por possuir grandes reservas de terras raras e liderar a produção de nióbio, mineral utilizado em segmentos como infraestrutura, defesa, energia e indústria aeroespacial.
Segundo Beny Fard, transformar esse potencial em vantagem competitiva dependerá da ampliação da capacidade de processamento industrial, da segurança jurídica e da atração de investimentos.
Entre os exemplos citados pelo especialista estão a aquisição da mineradora Serra Verde pela empresa norte-americana USA Rare Earth, em operação avaliada em US$ 2,8 bilhões, além do aporte de US$ 565 milhões de uma agência de fomento dos Estados Unidos em projetos brasileiros ligados a minerais críticos.
Apesar do interesse internacional, o especialista alerta que essa oportunidade possui prazo limitado.
“O Brasil já teve outras oportunidades de transformar vantagens naturais em posição estratégica, mas nem sempre conseguiu avançar com planejamento e execução. Desta vez, a janela é mais curta. O país precisa agir rápido para converter potencial mineral em relevância econômica”, ressalta.
Geopolítica influencia decisões empresariais
Segundo Beny Fard, as mudanças no cenário internacional tornaram a geopolítica um componente estratégico para empresas e investidores, que precisam considerar fatores como tarifas, cadeias produtivas, riscos internacionais e acesso a matérias-primas nas decisões de longo prazo.
“Tarifas, juros e risco geopolítico não podem ser analisados apenas pela manchete da semana. Esses movimentos fazem parte de uma lógica mais profunda, que conecta poder, tempo, cadeias produtivas e decisões de investimento. Foi essa leitura que procurei desenvolver no livro”, afirma.
Na avaliação do autor, a capacidade de transformar recursos naturais, planejamento estratégico e posicionamento internacional em vantagem econômica será determinante para países que desejam ampliar sua competitividade nos próximos anos.






















