O mercado global de minério de ferro caminha para 2026 sob um ambiente de maior pressão, marcado por preços mais baixos, demanda ainda enfraquecida e aumento da oferta internacional. Para o Brasil, segundo maior produtor mundial da commodity, o cenário acende um alerta para a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), fonte relevante de receitas para estados e municípios mineradores e afetados. A avaliação consta do Boletim Econômico divulgado nesta terça-feira (13) pela AMIG Brasil – Associação Brasileira dos Municípios Mineradores.
Em 2025, a arrecadação da CFEM alcançou aproximadamente R$ 7,9 bilhões, crescimento de pouco mais de 6% em relação a 2024, quando a receita somou R$ 7,4 bilhões. O minério de ferro manteve-se como principal base de arrecadação, respondendo por cerca de 70% do total, o que evidencia a elevada exposição fiscal dos entes públicos às oscilações desse mercado.
Apesar do avanço da receita, o desempenho de 2025 ocorreu em um contexto de queda nos preços internacionais. A cotação média do minério com teor de 62% de ferro ficou em US$ 101,98 por tonelada, retração de 7,6% na comparação com 2024, quando o valor médio foi de US$ 110,34. Entre 2020 e 2025, o minério acumulou perda aproximada de 7,5%, mesmo com a forte valorização observada em 2021, durante o período mais crítico da pandemia.
Somente no segundo trimestre de 2025, a commodity registrou queda de 6,5%, com o menor patamar em junho, quando o preço encerrou o mês em torno de US$ 95,20 por tonelada, reforçando a tendência de acomodação em níveis mais baixos.
Câmbio atenua impactos, mas não elimina riscos
Um dos fatores que ajudaram a sustentar a arrecadação da CFEM em 2025 foi o comportamento do câmbio. A valorização do dólar compensou parcialmente a queda dos preços internacionais. A moeda norte-americana encerrou o ano cotada a R$ 5,59, acima dos R$ 5,39 registrados em 2024, reduzindo os efeitos negativos sobre a base de cálculo da compensação.
Segundo a consultora econômica da AMIG Brasil, Luciana Mourão, o câmbio atuou como um amortecedor conjuntural. “Mesmo com a queda do preço internacional do minério, a valorização do dólar ajudou a preservar a arrecadação, especialmente nos municípios mineradores. No entanto, esse fator não elimina os riscos estruturais do mercado para os próximos anos”, afirma.
Projeções indicam novo ciclo de ajuste em 2026
As estimativas para 2026 reforçam um cenário mais desafiador. Projeções baseadas no consenso de analistas internacionais, sistematizadas pela consultoria GMK Center, indicam que o preço médio anual do minério de ferro na China deve recuar para cerca de US$ 94 por tonelada, queda aproximada de 7% em relação à média de 2025.
Há, contudo, divergências entre as instituições. O Citi projeta preços em torno de US$ 85 por tonelada, enquanto a Vale trabalha com estimativa de até US$ 100. O Goldman Sachs prevê média de US$ 93; J.P. Morgan e BMI apontam US$ 95; e a Fitch Ratings estima US$ 90 por tonelada. No mercado futuro, contratos com vencimento em dezembro de 2026 na Bolsa de Singapura são negociados em torno de US$ 95 por tonelada.
De acordo com o GMK Center, valores próximos a US$ 94 são considerados sensíveis, pois se aproximam do ponto de equilíbrio de diversos produtores globais, especialmente aqueles com custos operacionais mais elevados.
Demanda chinesa e oferta global no radar
Entre os principais fatores de pressão estão a demanda ainda fraca por aço na China, principal consumidora mundial do minério, e a recuperação limitada do setor imobiliário do país. Soma-se a isso a expectativa de entrada em operação do projeto Simandou, na Guiné, que deve adicionar cerca de 20 milhões de toneladas de minério de ferro de alta qualidade e baixo custo ao mercado global.
Outro elemento de incerteza é a possível implementação, pela China, de um sistema de licenciamento para exportações de aço a partir de janeiro de 2026, o que pode reduzir a produção siderúrgica e, consequentemente, a demanda por minério. Analistas também apontam risco de maior pressão de baixa no segundo semestre de 2026, com preços podendo se aproximar de US$ 90 por tonelada.
Reflexos nas finanças públicas
Diante desse quadro, a AMIG Brasil alerta para a necessidade de prudência no planejamento orçamentário dos entes públicos fortemente dependentes da CFEM. A combinação de preços mais baixos, incertezas sobre a demanda global e volatilidade cambial pode impactar diretamente as receitas locais.
“A CFEM é altamente sensível ao ciclo das commodities. Um cenário de preços mais baixos em 2026 tende a pressionar a arrecadação, sobretudo se não houver compensação cambial. Estados e municípios precisam adotar uma postura conservadora e evitar decisões baseadas em picos temporários de receita”, conclui Luciana Mourão.
Segundo a entidade, o desempenho do mercado de minério de ferro em 2026 deverá funcionar como um teste relevante para a Sustentabilidade fiscal das regiões mineradoras brasileiras, reforçando a importância da diversificação econômica e do planejamento de longo prazo.




















