Empresas que atuam com importação e exportação enfrentam um cenário cada vez mais desafiador diante da alta dos fretes marítimos, dos conflitos internacionais e das novas barreiras comerciais. Nesse contexto, especialistas alertam que erros operacionais podem comprometer o caixa das empresas antes mesmo da chegada da mercadoria ao destino.
Segundo Ronaldo Felix, sócio e diretor de Operações da Saygo Group, muitas organizações concentram seus cálculos no custo da mercadoria, do frete e dos tributos, mas deixam de considerar o impacto financeiro do tempo em que os recursos permanecem imobilizados durante a operação internacional.
“O capital parado em operações internacionais não aparece apenas como um atraso logístico. Ele reduz a liquidez, compromete o planejamento financeiro e pode impedir a empresa de fechar uma nova compra ou aproveitar outra oportunidade de negócio”, afirma.
Capital de giro fica comprometido durante a operação
Quando uma empresa realiza o pagamento antecipado ao fornecedor, contrata o transporte e assume os custos da importação, os recursos permanecem imobilizados até que a carga seja desembaraçada e possa ser comercializada ou utilizada na produção.
Quanto maior esse intervalo, maior tende a ser a necessidade de capital de giro para manter as operações.
Entre os fatores que prolongam esse ciclo estão congestionamentos portuários, mudanças de rotas marítimas, exigências alfandegárias, erros na classificação fiscal, inconsistências documentais e falhas de comunicação entre fornecedores, despachantes, transportadoras e importadores.
Para Ronaldo Felix, o prejuízo vai além do aumento do frete.
“Quando o frete encarece e o prazo se alonga, a empresa sofre duas vezes. Ela paga mais pela movimentação da carga e permanece por mais tempo sem poder transformar aquela mercadoria em receita. Muitas vezes, o maior prejuízo não está em uma tarifa isolada, mas na soma entre atraso, armazenagem e dinheiro imobilizado”, explica.
Planejamento reduz riscos e evita prejuízos
O especialista destaca que boa parte dos problemas pode ser evitada antes mesmo do embarque da mercadoria.
Segundo ele, a previsibilidade depende de planejamento operacional, conferência da documentação e integração entre todos os participantes da cadeia logística.
“Quando as etapas são planejadas e as equipes trabalham com as mesmas informações, a empresa consegue identificar falhas antes que elas provoquem retenções. O planejamento operacional deixou de ser apenas uma questão logística e passou a ser uma ferramenta de gestão financeira”, afirma.
Entre os principais fatores que prolongam o ciclo financeiro das operações internacionais estão:
- documentação incompleta ou inconsistente;
- divergências entre pedidos, faturas e demais documentos;
- classificação fiscal incorreta;
- falta de integração entre fornecedores, despachantes e importadores;
- planejamento inadequado do desembaraço aduaneiro;
- ausência de monitoramento contínuo da carga durante o transporte.
Segundo Felix, identificar inconsistências ainda na origem reduz significativamente o risco de prejuízos.
“Quanto mais cedo uma inconsistência é identificada, menor é o risco de transformar um problema operacional em prejuízo financeiro. No comércio exterior, eficiência também significa liberar capital de giro mais rapidamente.”
Tarifaço amplia necessidade de planejamento
As mudanças na política tarifária dos Estados Unidos também aumentam a necessidade de planejamento nas operações internacionais.
Segundo o especialista, empresas brasileiras podem precisar buscar novos mercados, fornecedores e rotas de exportação, mas essa diversificação exige análise cuidadosa das exigências tributárias, sanitárias, documentais e cambiais de cada destino.
“Trocar de fornecedor ou de destino sem avaliar a operação completa pode apenas transferir o problema. A empresa precisa analisar prazo, câmbio, tributação, capacidade portuária, documentação e impacto sobre o caixa. A melhor alternativa comercial nem sempre é aquela que apresenta o menor preço de compra”, alerta.
Informações financeiras fortalecem a gestão logística
Para especialistas, acompanhar apenas a localização da carga já não é suficiente para garantir eficiência nas operações internacionais.
A integração entre as áreas logística, financeira, fiscal e cambial permite que as empresas relacionem cada etapa da operação aos seus impactos financeiros, considerando prazos de pagamento, tempo de trânsito, desembaraço aduaneiro, armazenagem e disponibilidade da mercadoria.
Essa integração também facilita a revisão de compras, ajustes de estoque, renegociação de prazos e evita a necessidade de recorrer a crédito emergencial para cobrir custos inesperados.
Segundo Ronaldo Felix, transformar informações operacionais em indicadores financeiros é essencial para reduzir o capital parado e aumentar a capacidade de resposta das empresas.
“Não basta saber onde a carga está. É preciso entender quanto cada dia adicional representa para a empresa. Quando a informação operacional chega rapidamente à área financeira, a companhia consegue ajustar o caixa antes que o atraso comprometa toda a operação”, conclui.






















