O volume de ajuda internacional destinado por países ricos a nações em desenvolvimento e organismos multilaterais registrou, em 2025, a maior queda da série histórica. Os repasses recuaram 23,1% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 174,3 bilhões, uma redução real de US$ 52,4 bilhões, já descontada a inflação.
Os dados constam no estudo Financiamento para o Desenvolvimento, elaborado pelo Brics Policy Center, vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com base em informações do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Segundo os pesquisadores, este foi o segundo ano consecutivo de retração da ajuda internacional, com projeção de nova queda de 6,9% em 2026, o que poderá levar os repasses ao menor nível desde 2014.
O que é a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento
Os recursos analisados correspondem à Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), formada por verbas públicas destinadas por governos para promover o desenvolvimento econômico e social de países de menor renda.
Essa assistência pode ocorrer de duas formas:
- bilateral, quando o recurso é enviado diretamente ao país beneficiado;
- multilateral, quando os valores são destinados a organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial, responsáveis por programas de desenvolvimento.
Estados Unidos lideram redução
Embora o CAD reúna 33 países e a União Europeia, o estudo mostra que França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos responderam por 95,7% da redução global registrada entre 2024 e 2025.
Os Estados Unidos foram responsáveis pela maior parte desse movimento. O país reduziu em 56,9% sua ajuda internacional, concentrando sozinho 75,1% de toda a queda observada no período.
Também registraram reduções consecutivas:
- Alemanha: -17,4%;
- França: -10,9%;
- Reino Unido: -10,8%;
- Japão: -5,6%.
Foi a primeira vez que todos os maiores doadores diminuíram os repasses por dois anos seguidos.
Mudança de prioridades
O estudo relaciona a redução da assistência internacional ao início do novo mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja política externa tem adotado postura mais crítica ao multilateralismo.
Além disso, os pesquisadores apontam que diversos países passaram a direcionar mais recursos para defesa e segurança energética.
Nos Estados Unidos, os gastos militares aumentaram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões em 2025.
Na União Europeia, as despesas com defesa cresceram 11%, alcançando 381 bilhões de euros. Já os investimentos em energia praticamente dobraram na última década, passando de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025, impulsionados principalmente pelos efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Financiamento multilateral muda de perfil
Os pesquisadores identificaram uma “retração seletiva” da ajuda internacional.
Enquanto o financiamento destinado ao sistema das Nações Unidas caiu 27%, o maior recuo já registrado, os aportes ao Banco Mundial cresceram 6,4% e os destinados aos bancos regionais de desenvolvimento aumentaram 11,9%.
Segundo o estudo, essa mudança indica que os países doadores passaram a selecionar com mais rigor quais instituições multilaterais consideram estratégicas.
Ucrânia continua prioridade
Mesmo com a redução de 91% da ajuda americana ao país, a Ucrânia permaneceu como o maior destinatário individual da história da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento.
O país recebeu US$ 44,9 bilhões, graças ao aumento da assistência financeira concedida por outros 23 doadores. Apenas as instituições da União Europeia elevaram em 65,2% os recursos destinados aos ucranianos.
O valor supera os US$ 28,1 bilhões enviados, em conjunto, aos 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos.
África Subsaariana é a região mais afetada
A África Subsaariana sofreu o maior impacto da retração dos recursos internacionais.
Em 2025, a região recebeu US$ 29,2 bilhões, queda de 23% em relação ao ano anterior.
Para 2026, a projeção é de novo recuo, desta vez de 11,6%, o que representaria menos US$ 11,8 bilhões em financiamentos.
Dos 49 países da África Subsaariana, 32 fazem parte do grupo das nações menos desenvolvidas, segundo a ONU.
Possíveis impactos
Com base em estimativas da organização internacional Oxfam, o estudo alerta que a redução da ajuda externa em 2025 poderá resultar em aproximadamente 695 mil mortes adicionais.
Caso a tendência de cortes persista até o fim da década, a projeção aponta para mais de 9,4 milhões de mortes em excesso até 2030.
O levantamento também destaca que a escassez de recursos dificulta o financiamento de iniciativas globais, como o combate às mudanças climáticas. Durante a cop30, realizada em Belém, discutiu-se a necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão para ações climáticas, valor considerado de difícil alcance diante da atual redução dos investimentos internacionais.
Propostas do estudo
Como alternativas para reduzir os impactos da diminuição da ajuda internacional, os pesquisadores sugerem:
- priorizar recursos para os países mais pobres e dependentes da assistência externa;
- planejar a retirada gradual dos financiamentos de forma coordenada e responsável;
- aumentar a eficiência dos programas de cooperação internacional para ampliar os resultados obtidos com os recursos disponíveis.
Fonte:Agência Brasil.






















