O uso excessivo de ferramentas de inteligência artificial e o consumo contínuo de conteúdos mediados por algoritmos podem comprometer o desenvolvimento da criatividade e da capacidade de inovação das novas gerações. O alerta é de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que aponta possíveis impactos de modelos de aprendizagem excessivamente baseados em algoritmos sobre as competências cognitivas.
Segundo o pesquisador Rodrigo de Barros, autor do estudo de doutorado, a combinação entre hiperconectividade, consumo intensivo de conteúdos personalizados por algoritmos e redução das experiências presenciais afeta processos cognitivos ligados à criatividade, considerada uma habilidade estratégica para a inovação.
De acordo com o pesquisador, o consumo contínuo de informações e entretenimento direcionados por algoritmos pode limitar a exposição a novas perspectivas e reduzir a capacidade de estabelecer conexões originais entre diferentes conhecimentos, elemento essencial para o pensamento criativo.
A pesquisa destaca que a criatividade é apontada pelo Fórum Econômico Mundial como uma das competências mais importantes para os profissionais do futuro. Apesar disso, o estudo argumenta que a dependência crescente de plataformas digitais pode dificultar o desenvolvimento dessa habilidade, especialmente entre jovens que ingressam no mercado de trabalho.
Como resposta a esse cenário, o pesquisador desenvolveu o Modelo MACI, uma metodologia voltada ao desenvolvimento da criatividade em indivíduos e equipes. A proposta reúne cinco dimensões de aprendizagem, 25 fundamentos operacionais e 184 elementos de avaliação, além de um instrumento composto por 75 questões para medir o nível de maturidade criativa.
O modelo também deu origem a um sistema digital capaz de realizar diagnósticos automatizados e sugerir intervenções para áreas de recursos humanos e lideranças. Segundo o pesquisador, quando o sistema identifica indicadores abaixo do nível considerado adequado, recomenda ações baseadas em evidências científicas para estimular o desenvolvimento da criatividade.
A pesquisa foi construída a partir da análise inicial de 1.004 artigos científicos internacionais. Após critérios de seleção, foram considerados 101 estudos de maior impacto para fundamentar o modelo proposto.
O estudo também relaciona criatividade e desempenho organizacional. Segundo o pesquisador, a inovação depende da capacidade dos profissionais de gerar ideias originais antes da criação de novos produtos, serviços ou processos. Nesse contexto, a criatividade é apresentada como um fator anterior à inovação.
A discussão ocorre em um cenário de crescente digitalização da rotina de crianças, adolescentes e jovens adultos. O estudo argumenta que a personalização promovida por algoritmos tende a restringir o contato com conteúdos diferentes dos interesses já estabelecidos, reduzindo oportunidades de descoberta e experimentação.
Além disso, o trabalho menciona que os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) evidenciam dificuldades persistentes entre estudantes brasileiros na resolução de problemas complexos, interpretação de informações e raciocínio crítico. Para o pesquisador, criatividade, aprendizagem e inovação estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento dessas competências.
Entre as medidas sugeridas para fortalecer o pensamento criativo estão a redução do uso excessivo de dispositivos digitais, o incentivo à leitura, às atividades artísticas, ao contato com a natureza e à criação de ambientes que favoreçam a experimentação, a reflexão e a diversidade de experiências.
Segundo o estudo, em um contexto de crescente automação, competências humanas como criatividade, resolução de problemas complexos e capacidade de conectar conhecimentos tendem a ganhar ainda mais importância no mercado de trabalho.






















