Nunca foi tão fácil acessar informação, aprender novas habilidades ou resolver problemas técnicos. Ao mesmo tempo, transformar conhecimento em entregas concretas e consistentes nunca pareceu tão difícil. O paradoxo define o atual cenário do mercado de trabalho, marcado pelo excesso de informações, múltiplas ferramentas digitais, agendas fragmentadas e pela sensação constante de improdutividade.
Segundo o estudo Work Trend Index 2026, da Microsoft, o principal risco da Inteligência Artificial não está na substituição de profissionais, mas na amplificação de ambientes sem foco, clareza e capacidade de autogestão. O relatório aponta que o grande gargalo do trabalho contemporâneo deixou de ser a falta de conhecimento e passou a ser a dificuldade de transformar informação em execução eficiente.
Para Roberta Rosenburg, especialista em estratégia de negócios e capital humano, o diferencial competitivo atual já não está apenas no conhecimento técnico.
“Hoje qualquer gap técnico se resolve em minutos. O diferencial agora deixou de ser saber e passou a ser conseguir transformar conhecimento em algo tangível, aplicável e gerador de resultado”, afirma.
A pesquisa mostra ainda que o ambiente corporativo se tornou cada vez mais fragmentado, com interrupções constantes, excesso de tarefas simultâneas e mudanças rápidas de contexto. Segundo o levantamento, a Tecnologia ampliou a capacidade de iniciar atividades, mas não solucionou o problema de concluí-las.
O resultado é um volume crescente de demandas em andamento, poucas efetivamente finalizadas e uma sensação permanente de urgência, dificultando profundidade, foco e consistência na entrega.

De acordo com o Work Trend Index 2026, a Inteligência Artificial tende a potencializar problemas já existentes nas organizações. Em ambientes marcados por baixa clareza de prioridades, excesso de demandas e pouca autonomia responsável, a automação acelera o volume de trabalho sem necessariamente aumentar o impacto ou os resultados obtidos.
O relatório alerta que, sem fator humano e capacidade de autogestão, a IA pode gerar mais velocidade operacional, mas sem alinhamento estratégico ou efetividade prática.
Mudança no perfil valorizado pelo mercado
Segundo Roberta Rosenburg, o mercado também mudou a forma de avaliar profissionais. Embora currículos continuem importantes, eles deixaram de ser o principal diferencial competitivo.
“O currículo virou triagem. O que pesa agora é prova de impacto: como a pessoa usou o que sabe, que decisão tomou sob pressão, que resultado gerou com recursos limitados”, destaca.
A especialista afirma que o mercado está menos impressionado com quantidade de cursos e mais atento à capacidade de execução, adaptação e geração de resultados reais.
Para ela, o avanço da IA torna ainda mais relevante o componente humano dentro das organizações.
“Se o trabalho humano se limita à execução lógica, repetitiva e previsível, ele se torna facilmente substituível. A vantagem humana está no que a máquina não entrega sozinha: julgamento, senso crítico, criatividade aplicada e leitura de contexto”, explica.
Autogestão ganha importância
Roberta destaca que competências como criatividade, empatia, liderança e pensamento crítico dependem diretamente da capacidade de autogestão.
“Talento é potencial. Disciplina é o que permite que esse potencial vire resultado observável. Sem disciplina comportamental, o talento não desaparece, ele simplesmente não se manifesta”, afirma.
Segundo a executiva, a dificuldade em sustentar comportamento, concluir projetos e manter consistência ajuda a explicar por que muitos profissionais acumulam conhecimento, mas não conseguem converter isso em crescimento concreto ou impacto organizacional.
A especialista também aponta que o custo dessa crise de eficácia aparece em projetos interrompidos, transformações que não se sustentam e aumento da insatisfação profissional.
“Ser eficiente não significa necessariamente ser eficaz. Em momentos de incerteza, ninguém quer respostas automáticas, quer atenção humana. À medida que as máquinas fazem mais, cresce o valor do que elas não conseguem entregar, como empatia, criatividade aplicada e capacidade de inspirar”, resume.
Sobre Roberta Rosenburg
Roberta Rosenburg é especialista em estratégia de negócios e capital humano e CEO da F.Lead, empresa voltada ao desenvolvimento de ambientes corporativos de alta performance e inovação.
Com mais de 25 anos de atuação em liderança e transformação organizacional, já conduziu projetos em mais de 100 empresas de médio e grande porte, incluindo Unilever, Mercado Livre, Itaú, Salesforce e Danone.






















