A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conquistou uma importante patente internacional relacionada ao tratamento da malária resistente a medicamentos tradicionais. A patente foi concedida pelo Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos (USPTO) e envolve um método terapêutico baseado no composto conhecido como DAQ, considerado promissor no combate às formas mais graves da doença.
O desenvolvimento é resultado de pesquisas conduzidas pelo Instituto René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas Gerais, em parceria com universidades brasileiras e instituições internacionais. O composto demonstrou capacidade de agir contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, parasita responsável pelos casos mais severos de malária no mundo.
Segundo os pesquisadores, o principal diferencial do DAQ está na sua capacidade de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo próprio parasita ao longo dos anos, um dos principais desafios enfrentados atualmente no combate à doença.
Embora a molécula não seja inédita, já que sua atividade antimalárica havia sido descrita ainda na década de 1960, os estudos foram retomados pela equipe da Fiocruz utilizando abordagens modernas da química medicinal e da biologia molecular.
De acordo com o pesquisador colaborador da Fiocruz, Wilian Cortopassi, a equipe conseguiu identificar uma característica estrutural essencial da molécula responsável pela eficácia contra cepas resistentes.
“Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasita, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explicou o pesquisador.
O funcionamento do DAQ é semelhante ao da cloroquina, medicamento amplamente utilizado no tratamento da malária durante décadas. O composto interfere em um processo fundamental para a sobrevivência do parasita dentro do organismo humano.
Durante a digestão da hemoglobina, o Plasmodium produz substâncias tóxicas que normalmente consegue neutralizar para sobreviver. O DAQ bloqueia justamente esse mecanismo de defesa, provocando a morte do parasita.
Os estudos realizados até o momento demonstraram ação rápida da molécula nas fases iniciais da infecção, além de eficácia tanto contra cepas sensíveis quanto resistentes do Plasmodium falciparum. Os pesquisadores também identificaram resultados considerados positivos contra o Plasmodium vivax, responsável pela maior parte dos casos de malária registrados no Brasil.
Outro fator destacado pela equipe científica é o potencial de baixo custo do tratamento, aspecto considerado estratégico principalmente para países de baixa e média renda, onde a malária continua sendo uma doença endêmica e um grave problema de saúde pública.
As pesquisas contaram com colaboração de importantes instituições nacionais e internacionais, entre elas a University of California San Francisco (UCSF), a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde novos estudos continuam em andamento.
Apesar dos resultados animadores, os pesquisadores ressaltam que o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda exige etapas importantes antes de chegar ao mercado. Entre os próximos passos estão testes de toxicidade, definição de doses seguras e eficazes, além do desenvolvimento da formulação farmacêutica adequada para uso humano.
A patente concedida nos Estados Unidos foi registrada em março de 2026 e terá validade até setembro de 2041. Para a pesquisadora Antoniana Krettli, responsável pela coordenação dos estudos, a estrutura da própria Fiocruz pode acelerar futuras fases de desenvolvimento do tratamento.
“A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirmou.
Os especialistas alertam que, apesar da existência atual de tratamentos eficazes, o parasita da malária continua evoluindo e desenvolvendo resistência aos medicamentos disponíveis. Por isso, reforçam a importância de investir continuamente na pesquisa e no desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas para evitar futuras limitações no combate à doença.
A malária continua sendo uma das principais enfermidades infecciosas do mundo, especialmente em regiões tropicais. No Brasil, a maior parte dos casos está concentrada na região amazônica, onde fatores ambientais e climáticos favorecem a proliferação do mosquito transmissor.
Com informação Agência Brasil.






















