No sudeste do Pará, mulheres têm liderado uma transformação silenciosa, mas poderosa, que une geração de renda, preservação ambiental e valorização cultural. Em Parauapebas, iniciativas voltadas à produção de mel, cerâmica artesanal e biojoias mostram que é possível construir negócios sustentáveis a partir dos recursos da floresta.
Localizadas nas proximidades da Floresta Nacional de Carajás, essas mulheres encontraram na bioeconomia uma alternativa ao modelo tradicional baseado exclusivamente na mineração. A partir da coleta consciente de sementes, do manejo de abelhas e da produção artesanal, elas passaram a gerar renda e conquistar autonomia financeira, ao mesmo tempo em que preservam o meio ambiente.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA), que há cerca de uma década atua na produção de mel por meio da apicultura e da meliponicultura — criação de abelhas sem ferrão. A iniciativa vai além da produção: promove inclusão social e transformação de vida.
“Antes, a gente só cuidava da casa. Hoje, empreendemos e até voltamos a estudar”, relata Ana Alice de Queiroz, fundadora da associação. A AFMA reúne atualmente 23 famílias e se organiza de forma colaborativa, com protagonismo feminino na gestão e comercialização dos produtos.
O impacto dessas iniciativas acompanha uma tendência nacional. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas indicam que mais de 2 milhões de Pequenos negócios foram abertos por mulheres em 2025 no Brasil. Ainda assim, desafios persistem, como acesso ao crédito e menor faturamento médio em comparação aos homens.
Outro destaque em Parauapebas é a Associação Preciosidades da Amazônia, formada por mulheres que produzem biojoias a partir de sementes nativas. As peças combinam estética, identidade cultural e sustentabilidade, fortalecendo a economia local e gerando impacto social.
“A gente trabalha com o que a natureza oferece. Isso aqui é um verdadeiro tesouro”, afirma Sandra Brasil, tesoureira do grupo. Além da produção, as artesãs também atuam como multiplicadoras, ensinando novas mulheres e ampliando o alcance do projeto.
Já o grupo Mulheres de Barro resgata tradições ancestrais por meio da cerâmica. Inspiradas em artefatos arqueológicos encontrados na região da Serra dos Carajás, essas artesãs produzem peças que conectam passado e presente. A iniciativa surgiu a partir de ações de educação patrimonial conduzidas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi em parceria com a mineradora Vale.
Hoje, o grupo não apenas produz e comercializa peças, mas também oferece oficinas e cursos, contribuindo para a preservação da memória cultural e a formação de novas gerações.
Essas iniciativas fazem parte de um movimento maior de fortalecimento da bioeconomia, modelo baseado no uso sustentável dos recursos naturais. No Pará, esse setor já movimenta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano, impulsionado por cadeias produtivas ligadas à floresta e à agricultura familiar.
Para especialistas, o protagonismo feminino é peça-chave nesse processo. “Quando uma mulher lidera um negócio na Amazônia, ela gera renda, fortalece a cultura local e contribui para uma economia mais justa e sustentável”, destaca Renata Batista, do Sebrae.
Apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. Além das barreiras financeiras, muitas mulheres enfrentam sobrecarga de trabalho e dificuldades para expandir seus negócios. Ainda assim, o crescimento dessas iniciativas mostra que a bioeconomia pode ser uma alternativa viável e estratégica para o desenvolvimento da região.
Com apoio de instituições como o Fundo Vale, que já investiu mais de R$ 430 milhões em projetos sustentáveis, essas mulheres seguem transformando suas realidades — e mostrando que a floresta em pé pode ser sinônimo de oportunidade, inovação e futuro.
Com informação Agência Brasil.




















