Cerca de 708 milhões de mulheres permanecem fora do mercado de trabalho em razão da sobrecarga com o cuidado não remunerado e da falta de tempo disponível. O dado faz parte do Panorama de Gênero 2025, elaborado pela ONU Mulheres em parceria com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas.
O relatório aponta que, mesmo quando conseguem ingressar na atividade econômica, as mulheres tendem a se concentrar em ocupações de menor remuneração e enfrentam barreiras mais rígidas à progressão profissional.
Tecnologia amplia assimetrias
A desigualdade se acentua no setor de tecnologia. Segundo o estudo, as mulheres representam apenas 29% da força de trabalho global na área e ocupam 14% dos cargos de liderança. O avanço da inteligência artificial também preocupa: 28% dos empregos femininos estão potencialmente ameaçados pela automação, contra 21% entre os homens.
Para Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação, o debate sobre tecnologia precisa considerar as desigualdades já existentes. Ela cita o artigo “AI Doesn’t Reduce Work – It Intensifies It”, publicado na Harvard Business Review, que argumenta que a tecnologia não reduz a carga de trabalho, mas intensifica o ritmo e o volume das demandas.
“Justiça de gênero, na era da IA, significa impedir que a eficiência digital se sustente à custa de exaustão invisível”, afirma.
Sub-representação na política
A desigualdade também se reflete nos espaços de decisão. Dados da ONU Mulheres indicam que, em 1º de janeiro de 2025, as mulheres ocupavam apenas 27,2% das cadeiras nos parlamentos nacionais.
Para a especialista em oratória Fabiana Bertotti, o fenômeno não é casual, mas estrutural. Ela menciona estudos sobre o chamado “backlash”, que apontam que mulheres em posições de liderança frequentemente sofrem penalizações sociais ao demonstrar firmeza — característica tradicionalmente associada à autoridade.
“O silenciamento tem custo financeiro. Treinar a nossa voz é um ativo”, afirma.
Educação como ponto de partida
Na educação, o desafio começa cedo. Segundo dados da ONU, 122 milhões de meninas estão fora da escola. Para Vitor Azambuja, CEO do projeto De Criança Para Criança (DCPC), enfrentar essa realidade exige ampliar a consciência desde a infância, por meio de narrativas produzidas pelas próprias crianças.
Ao abordar histórias como a de Malala Yousafzai, o projeto busca estimular reflexão sobre direitos e igualdade. “A construção de uma sociedade mais justa começa com uma educação sólida desde a infância”, afirma.
Mudança cultural nas empresas
No ambiente corporativo, a linguista Vivian Rio Stella avalia que gestos simbólicos já não respondem às tensões estruturais. Segundo ela, é preciso deslocar a discussão de ações pontuais para transformações culturais mais profundas.
“Talvez seja hora de nomear o óbvio: as mulheres se realizam no trabalho não apesar de serem mulheres, mas porque trazem outras formas de pensar”, afirma. Para a especialista, conversas estruturadas, escuta ativa e revisão de práticas organizacionais são fundamentais para promover mudanças efetivas.
O conjunto de dados e análises indica que a desigualdade de gênero permanece como um desafio sistêmico, atravessando mercado de trabalho, inovação, política e educação — e exigindo respostas estruturais em múltiplos níveis.






















