O marketing do Agronegócio brasileiro acompanha transformações que ganharam velocidade nos últimos anos. Tecnologia, dados e sustentabilidade deixaram de funcionar como diferenciais e passaram a operar como pré-condições competitivas. Com um produtor mais conectado, mais informado e mais habituado a comparar soluções com base em indicadores operacionais, a disputa por relevância tende a migrar do discurso para a evidência. Em um ambiente de maior transparência e menor margem para promessas, marcas serão cobradas por provas, não por narrativas.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a conectividade rural alcançou 84,8% da população do campo em 2025, ampliando o acesso a canais digitais e plataformas de comunicação direta. O efeito imediato é a redução das assimetrias de informação: o produtor passou a pesquisar, comparar e validar ofertas em tempo real, com maior autonomia. Em paralelo, a cobertura 4G/5G em áreas agrícolas, estimada em aproximadamente 33%, reforça a digitalização das operações e o uso de ferramentas de agricultura de precisão, acelerando decisões orientadas por dados e aumentando o grau de exigência sobre o valor entregue por cada solução.
Nesse contexto, a comunicação baseada em dados de campo ganha centralidade. Argumentos genéricos perdem força diante de um público que acompanha produtividade por hectare, custo operacional, perdas e eficiência de aplicação como parte da rotina. A lógica de convencimento se aproxima da linguagem financeira e técnica, com foco em redução percentual de custos, ganho de produtividade, economia de insumos, previsibilidade de retorno e impacto na margem. A credibilidade tende a migrar para campanhas que demonstram resultados mensuráveis e para marcas capazes de sustentar promessas com indicadores consistentes.
A sustentabilidade, por sua vez, deixa de ser apenas um ativo reputacional e passa a se comportar como variável econômica. Com a estruturação do mercado regulado de carbono no Brasil em 2025 e potencial estimado de R$100 bilhões anuais, práticas de baixo carbono ganham status de instrumentos de geração de receita e manutenção de acesso a mercados. Isso reconfigura o papel do marketing no agro. Mensagens ambientais superficiais tendem a perder eficácia frente à pressão internacional por cadeias livres de desmatamento e à crescente demanda por rastreabilidade. O espaço de diferenciação se desloca para a capacidade de demonstrar, com base técnica, como produtos e serviços reduzem emissões, viabilizam certificações e facilitam a conformidade socioambiental.
A leitura de mercado também reforça a necessidade de uma segmentação mais refinada. A heterogeneidade do agro brasileiro, em culturas, regiões e escalas de produção, segue determinando ritmos distintos de adoção tecnológica. O avanço de 13% na adoção de bioinsumos na safra 2024/25, com concentração de 62% das aplicações na soja, evidencia a assimetria do processo e a limitação de campanhas massificadas. Em 2026, a eficiência tende a vir do ajuste fino: comunicação por perfil técnico, tamanho da operação, maturidade digital e contexto produtivo. A formação de microcomunidades segmentadas por cultura e tecnologia adotada reforça vínculos e aumenta a relevância, com menor dispersão da mensagem.
A consolidação da inteligência artificial amplia esse movimento ao permitir personalização em escala. A tecnologia viabiliza a análise de comportamento, a recomendação contextual e a entrega de conteúdo no momento mais adequado do ciclo produtivo. Para o marketing, isso significa migrar do calendário para o contexto: menos volume de mensagens e mais precisão, com orientações baseadas em histórico, fase da safra e necessidades específicas do produtor. Assistentes virtuais podem reduzir fricções comerciais ao responder dúvidas técnicas, simular cenários e apoiar decisões operacionais. A curadoria humana, no entanto, permanece necessária para validação técnica, consistência e ética, especialmente em temas sensíveis, como recomendações de uso e impacto ambiental.
Esse ambiente de maior cobrança técnica converge para outro ativo que ganha valor: a transparência operacional. Rastreabilidade e comprovação de origem responsável tornaram-se exigências crescentes do consumidor final e do comércio internacional, pressionando toda a cadeia a adotar sistemas de conformidade. Para empresas de insumos e serviços, a oportunidade está em transformar obrigação em diferencial, oferecendo relatórios automáticos, certificações digitais e dashboards de impacto ambiental, com métricas auditáveis. A confiança passa a ser construída por rastreabilidade e melhoria contínua documentada, e não por narrativas aspiracionais.
Essas mudanças indicam que o marketing do agronegócio, em 2026, tende a se aproximar do modelo de gestão do próprio produtor, com foco em retorno, risco, eficiência e evidência. A comunicação deixa de ser apenas suporte e passa a atuar como componente de competitividade, em um setor cada vez mais conectado e menos tolerante a promessas sem lastro.
Diogo Luchiari é Sócio & VP de Atendimento e Operações na Macfor, agência de marketing digital full service.




















