O Brasil registrou 2.050.548 novos Pequenos negócios entre janeiro e abril de 2026, crescimento de quase 14% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento do Sebrae com base em dados da Receita Federal. O aumento no número de empresas abertas também evidencia um desafio para os empreendedores: transformar operações inicialmente familiares, artesanais ou informais em negócios capazes de crescer com processos estruturados e liderança.
A trajetória da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal fundada no Alto Tietê, em São Paulo, ilustra parte desse processo. Com mais de três décadas de atuação, a empresa chegou a sete unidades próprias e mantém uma fábrica de aproximadamente 2 mil metros quadrados.
Segundo Felipe Noronha, CEO e sócio da empresa, o crescimento exige mudanças na forma de administrar o negócio. “Empreendedorismo na prática é entender que vender bem não significa estar pronto para crescer. A empresa pode nascer da intuição, do esforço da família e da relação direta com o cliente, mas só ganha escala quando aprende a organizar rotina, pessoas, produto e padrão”, afirma.
Da centralização à organização dos processos
Nos primeiros anos, é comum que o fundador concentre atividades como atendimento, compras, produção, finanças e decisões comerciais. A proximidade pode ajudar na construção da identidade da empresa, mas, conforme a operação aumenta, a centralização pode dificultar respostas e sobrecarregar a liderança.
Na Doce Magia, o processo de expansão envolveu a adoção de fichas técnicas, treinamentos, controles de produção e mudanças na organização das lojas. A construção de uma nova fábrica também foi utilizada para ampliar a previsibilidade da produção e reduzir diferenças entre as unidades.
O desafio é recorrente no setor de alimentação fora do lar. Pesquisa da Abrasel divulgada em julho de 2026 apontou que 54% dos bares e restaurantes esperavam aumento do faturamento durante as férias escolares, enquanto 37% tinham algum pagamento em atraso.
Para Noronha, o aumento da demanda precisa ser acompanhado por estrutura operacional. “O erro mais comum é confundir movimento com crescimento. Ter cliente na loja é importante, mas a empresa precisa entregar com qualidade, manter margem e repetir a experiência em outra unidade”, afirma.
Crescimento exige padronização
A profissionalização de uma empresa não começa apenas quando novas unidades são abertas. Em negócios de alimentação, o processo envolve aspectos como controle de insumos, padronização de receitas, exposição dos produtos, atendimento, embalagens, delivery e experiência do consumidor.
Dados do Índice Abrasel Stone, divulgados em abril de 2026, mostraram crescimento de 2,8% dos bares e restaurantes no primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período de 2025. O cenário indica recuperação da atividade, mas também aumenta a necessidade de controle de custos e qualidade para empresas que buscam crescer.
A expansão da Doce Magia para Guarulhos e São Bernardo do Campo representa uma nova etapa para a marca, com atuação em mercados que possuem características próprias de consumo e concorrência.
Segundo Noronha, a abertura de unidades em novas cidades exige que processos e padrões estejam estruturados. “Quando uma marca familiar chega a uma nova cidade, ela não leva apenas produtos. Ela leva uma forma de atender, produzir e se relacionar com o cliente. Se isso não estiver organizado, a expansão pode expor fragilidades que antes ficavam escondidas”, afirma.
Sucessão é outro desafio para empresas familiares
A profissionalização também ganha importância nos processos de sucessão. Em empresas familiares, a continuidade do negócio depende de reduzir a dependência em relação aos fundadores e estabelecer responsabilidades, indicadores e lideranças capazes de conduzir a operação.
Na Doce Magia, a estratégia buscou manter características associadas à origem artesanal da empresa ao mesmo tempo em que incorporou processos de gestão e produção.
“Gestão não substitui história. Ela protege a história quando a empresa cresce. O maior cuidado é estruturar a operação sem apagar aquilo que fez o cliente voltar durante tantos anos”, afirma Noronha.
Segundo o Sebrae, os pequenos negócios representaram cerca de 97% dos CNPJs registrados no país entre janeiro e abril de 2026. O setor de serviços concentrou a maior parte das novas empresas, com 1.327.408 registros no período.
O crescimento desse segmento reforça que abrir uma empresa é apenas a primeira etapa. Para avançar de forma sustentável, pequenos negócios precisam desenvolver processos, preparar lideranças, controlar custos, manter padrões de qualidade e estruturar a sucessão. A profissionalização da gestão, muitas vezes pouco visível para o consumidor, pode determinar se uma operação criada de forma improvisada conseguirá se transformar em uma empresa preparada para crescer.






















