"Cabeça de Bacalhau"- isso não é papo de pescador! - Revista Capital Econômico
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“Cabeça de Bacalhau”- isso não é papo de pescador!

Consumo consciente: entendendo o efeito colateral positivo envolvendo o bacalhau e relação com a covid-19

Certamente você já deve ter ouvido a indagação de se já viu a cabeça desse precioso tipo de pescado junto com as sobre outros fatos raros.

Realmente é difícil por aqui pois já chegam com elas cortadas ao Brasil. Verdade seja dita, bem antes disso.

Eles já são decapitados no próprio mar logo após a captura.

Porém antes, são retiradas as línguas que, frescas, são vendidas a preços exorbitantes em restaurantes dos países pesqueiros.

Mas esses fatores não impedem que estejam, literalmente, com suas “cabeças a prêmio” devido ao risco de extinção por conta da pesca ainda predatória.

No entanto, as festas de fim de ano mais restritas no Brasil por conta do Covid-19 ajudaram a aliviar momentaneamente o impacto sobre esses cardumes do outro lado do continente e do hemisfério.

Mas como ocorreu esse efeito colateral positivo envolvendo o bacalhau? Entenda agora…

Restrições do Covid no Brasil: campeão em importação de bacalhau

O período de isolamento social afetou diretamente a dinâmica e a quantidade de pessoas nas comemorações das famílias que ficaram bem mais restritas.

Pelo menos nas mais conscientes!

O gosto herdado dos portugueses por esse prato natalino foi deixado em segundo plano pelo preço e cancelamento de eventos maiores – fazendo minguar ou sair do cardápio de muitas casas.

Fator este que, junto com a desvalorização do real, provocaram um desequilíbrio histórico nas importações dos tradicionais produtos natalinos. E o item campeão nessa queda foi o bacalhau com impactos diretos na economia dos principais exportadores para o Brasil: Noruega e de Portugal.

Esse fenômeno foi detectado pela pesquisa da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviço e Turismo do Brasil.

Somente esse pescado movimentou quase 40 milhões de dólares nas compras brasileiras nas festas de 2019 e despencou para menos da metade neste último Natal/Réveillon, registrando um pouco mais de 18 milhões – revela Fabio Bentes, economista da CNC responsável pela pesquisa.

“A quantidade de produtos tipicamente natalinos importados pelo varejo para o Natal de 2020 foi a menor desde 2009 e entre os itens que sofreram maior redução nas compras do exterior o destaque foi justamente o bacalhau”

Como tem um ditado que diz que tudo tem o seu lado positivo, o bioma marinho dessas nações pesqueiras agradece!

É que apesar de ter freado o estrago vertiginoso que eclodiu na década passada, estudo do WWF regional da Noruega ainda aponta como preocupante a sobrevivência desses peixes.

O relatório alerta que alguns tipos podem estar extintos em 15 anos em todo o planeta! Já o Conselho Internacional para Exploração do Mar –ICES adverte que se não reduzirem imediatamente a captura em 70%, em breve não sobrará nem espinhas para contar a história do que foi um dos ingredientes mais apreciados do mundo.

Tipos de Bacalhau mais consumidos no Brasil são os mais ameaçados

Alguns já estavam catalogados na lista vermelha de extinção desde 2006, liderado pelo mais nobre entre as 5 espécies: o “Bacalhau-do Atlântico”.

Já o “Escamudo” custa 5 vezes menos, fato que não o tira do topo do ranking do desaparecimento.

Você pode não associar o nome a espécie, mas certamente o gosto é muito familiar. Este é o mais consumido por aqui tido como presença vip para dar a liga na massa do tradicional bolinho de bacalhau. A sequência na preferência pelos brasileiros estão: o Donzela e o Zarbo – que também figuram no grupo de risco.

Estes dois últimos ainda apresentam um quadro ambiental ainda mais impactante. É que por habitarem as camadas mais profundas do oceano, sua pesca é mais agressiva ao ambiente devido a necessidade de maior queima de óleo pelas embarcações, custo mais alto no processo de captura e o arrasto de outras espécies juntas pelas pesadas e devastadoras redes.

Aumentos dos preços, escassez e redução dos tamanhos

Fora que, sem querer fazer trocadilho com sua forma de conservação, o preço, do que já foi o alimento dos mais pobre na Europa, está cada vez mais salgado. Isso devido a sua progressiva escassez na natureza. Outro tipo de redução constatado pelos consumidores (inclusive os brasileiros) é no tamanho das espécies ofertadas nas gôndolas dos supermercados.

A pernambucana moradora há 15 anos no Rio de Janeiro, Sandra da Cruz reclamava enquanto escolhia o produto em um supermercado de Copacabana (RJ) para um “natal fora de época” que fez na segunda quinzena de janeiro para parentes que chegaram de sua terra natal.

“Cada vez mais caros, magros e pequenos. Tenho até medo de estar comprando um ‘mulato-velho” falsificado. Por isso temos que abrir o olho e escolher bem”.

Não se trata de nenhuma intuição da pernambucana, mas sim fato comprovado pela ciência.

O Relatório do Programa Ambiental da ONU feito em 18 regiões do planeta alerta para a redução progressiva e significativa tanto da quantidade como do comprimento desses habitantes marinhos.

Trata-se da ação direta do tripé: pesca predatória das espécies ainda em desenvolvimento, durante a fase de reprodução, poluição e mudanças climáticas. E a escassez e preços altos fazem disparar falsificações de outros preços salgados e vendidos como bacalhau, entre eles o Mulato-Velho que ela cita. Ou seja, tem razão o brasileiro ficar de olho para não comprar gato por lebre – no caso, outro peixe como bacalhau.

Risco ambiental e legado negativo das Fazendas de Bacalhau

Para não repetir a tragédia irrecuperável ocorrida na costa do Canadá, países produtores incentivaram a implantação de fazendas específicas de criação – como forma de compensar a redução da cota de captura in natura estabelecida por alguns países produtores europeus.

Propostas sobre a implantação desses empreendimentos também chegaram a ser ventiladas aqui no Brasil, mas felizmente não foram adiante.

É que esse cultivo resulta em alguns impactos ambientais graves: o uso de espécies menores para alimentar a criação e fora que, para sobreviverem confinados, são necessárias alterações genéticas. E como nessa operação há uma margem de perda por fuga desses cercados, os que escapam ainda ameaçam os selvagens. Isso porque costumam ser maiores e mais fortes. Desta forma se sobressaem na busca por comida e reprodução. E como resultado disso, acabam alterando o equilíbrio ecológico

Porém um fato aparentemente positivo, apresentou um outro lado oculto e ruim da mesma moeda. A regeneração dos estoques naturais protegidos respondeu positivamente e num prazo menor do que o previsto. Diante disso, alguns empresários abandonaram suas criações, libertando parte dos que restavam modificados geneticamente.

E para ajudar ainda mais a desestimular esses empreendimentos, uma, por enquanto lenda (ainda não comprovada cientificamente) acrescentava dois outros aspectos negativos que impactavam na comercialização desses criadouros: uma possível diferença no paladar dos cultivados e uma maior dificuldade no processamento de desidratação através do milenar processo de conservação por salgamento.

São fatores que ajudaram a reduzir o interesse pela importação por outros países, inclusive o Brasil.

 

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