Sentadas no chão da Avenida Paulista, em São Paulo, crianças amassavam a argila e moldavam pequenos vasos para acomodar sementes e mudas que, no futuro, devem germinar e dar frutos. O gesto simbólico marcou os sete anos de uma das maiores tragédias do país, quando 272 pessoas morreram após o rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, em Minas Gerais.
O ato foi promovido pelo Instituto Camila e Luiz Taliberti, criado em homenagem aos dois filhos de Helena Taliberti, mortos na tragédia. Camila e Luiz estavam hospedados na Pousada Nova Estância, que foi engolida pelos rejeitos da barragem. Na mesma viagem, Helena perdeu também a nora, Fernanda Damian, grávida de cinco meses do primeiro filho, além do ex-marido, pai de Camila e Luiz, e da esposa dele à época.
Emocionada, Helena destacou o significado do ato voltado às crianças. “As crianças são o nosso futuro. Estou um pouco emocionada porque não vou ter netos mais. Mas eu acho que ainda tenho obrigação de zelar pelo futuro dessas gerações para que elas entendam o que é o meio ambiente”, afirmou em entrevista neste domingo (25). Para ela, a preservação ambiental precisa ser pensada também no cotidiano das cidades. “O meio ambiente não é só a Amazônia ou o Pantanal. São Paulo está incrustada na Mata Atlântica e só tem 12% do bioma original”, lamentou.
Helena defendeu a criação de áreas verdes urbanas e a educação ambiental das novas gerações. “A gente precisa criar, dentro das nossas cidades, nichos importantes de respiro do planeta. São Paulo precisa ter respiros e um trabalho muito importante com as próximas gerações para que não seja uma cidade inviável do ponto de vista de moradia”, reforçou.
Além da oficina com argila, uma sirene foi acionada às 12h28 na Avenida Paulista, horário exato em que a barragem se rompeu, em 25 de janeiro de 2019. O som simbolizou o alerta que não foi emitido naquele dia. “Pelas investigações, soubemos que a empresa sabia que a barragem estava com problemas e precisava de manutenção, mas isso não foi feito adequadamente. Aquela tragédia poderia ter sido evitada”, afirmou Helena, destacando que o acionamento da sirene poderia ter salvado vidas.
Ela também lembrou que o desastre de Mariana, ocorrido em 2015, deveria ter servido de alerta. “Mariana foi a verdadeira sirene de Brumadinho e ninguém ouviu”, disse.
Sem justiça
Sete anos após a tragédia, ainda não houve responsabilização criminal. Um processo em tramitação na Justiça de Minas Gerais deve julgar 15 pessoas pelo episódio, mas, até agora, ninguém foi condenado. “A Justiça não foi feita”, afirmou Helena. Segundo ela, a reparação às vítimas tem sido lenta e insuficiente. “As pessoas atingidas perderam tudo: casas, lavouras, animais. E isso não foi reposto de forma adequada”, lamentou.
Para a ativista, o próprio conceito de reparação é limitado. “Não se repara a morte de alguém. Isso não existe. Mas a reparação aos atingidos precisa acontecer, assim como a justiça, para que os responsáveis sejam punidos”, destacou.
Helena concluiu alertando para o risco da impunidade. “A responsabilização é fundamental para evitar que tragédias como essa se repitam. A impunidade é a porta para acontecer de novo. E a gente não pode permitir que isso aconteça de novo.”
Com informação agência Brasil.






















