O avanço da inteligência artificial (IA) e da automação está transformando o mercado de trabalho e levantando um novo desafio para as empresas: como formar profissionais em início de carreira quando as tarefas tradicionalmente destinadas aos estagiários estão sendo automatizadas.
Atividades como elaboração de relatórios, atendimento, conferência de dados e lançamentos em sistemas, que historicamente serviam como porta de entrada para o aprendizado prático, vêm sendo cada vez mais executadas por agentes de inteligência artificial. O cenário abre espaço para uma discussão sobre o futuro dos programas de estágio e do desenvolvimento de talentos.
Formação de profissionais entra em nova fase
Segundo Tiago Mavichian, CEO da Companhia de Estágios, as empresas precisarão adaptar seus programas para preparar jovens para funções de maior complexidade desde o início da carreira.
“O mercado precisa de talentos para sustentar o crescimento das empresas e o estagiário terá um novo papel. O desafio estará em formar os jovens de maneira acelerada, para que consigam atuar com atividades mais complexas e usando IA. Não dá para abrir mão da formação das pessoas”, afirma.
Tradicionalmente, os estágios eram estruturados em uma evolução gradual. Os estudantes iniciavam executando tarefas operacionais e, conforme adquiriam experiência, assumiam atividades mais estratégicas até alcançarem cargos efetivos.
Com a automação dessas funções básicas, esse modelo passa por uma reformulação.
IA acelera mudanças no perfil dos programas de estágio
Antes mesmo da popularização da inteligência artificial, o mercado já vinha alterando o perfil das vagas de estágio. Atividades mais operacionais passaram a ser direcionadas, em muitos casos, aos programas de jovem aprendiz.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que o Brasil registrou 715.277 jovens aprendizes contratados em 2025, o maior número da série histórica.
Com isso, os programas de estágio passaram a priorizar estudantes em fases mais avançadas da graduação e preparados para assumir responsabilidades mais sofisticadas.
Agora, segundo especialistas, a IA acelera esse processo ao absorver grande parte das tarefas repetitivas.
Novo papel do estagiário
Na prática, o estágio tende a deixar de ser baseado apenas na execução de atividades operacionais para priorizar a participação supervisionada em problemas reais da empresa.
Em vez de apenas executar processos, os estudantes deverão atuar ao lado de profissionais experientes, analisando informações produzidas por ferramentas de inteligência artificial, validando resultados, identificando inconsistências e desenvolvendo capacidade de análise e tomada de decisão.
Redução de vagas pode gerar escassez de profissionais
Embora a automação possa incentivar empresas a reduzir posições de entrada, especialistas alertam para os impactos dessa estratégia no longo prazo.
Pesquisa da consultoria Gartner, realizada entre julho e outubro de 2025 com 509 líderes da cadeia de suprimentos, aponta que 55% dos entrevistados esperam reduzir a contratação para cargos de entrada em função da IA agêntica.
O estudo também projeta que, até 2030, 75% das organizações que interromperem esse tipo de contratação em 2026 poderão enfrentar aumento superior a 15% nos custos para atrair profissionais em início de carreira, devido à escassez de mão de obra qualificada.
RH terá papel estratégico na adaptação
Para especialistas, o desafio das áreas de Recursos Humanos vai além do preenchimento das vagas. Será necessário redesenhar os programas de desenvolvimento para garantir que os jovens continuem adquirindo experiência prática, mesmo em um ambiente onde parte significativa das atividades já é realizada por inteligência artificial.
Uma das alternativas é manter, de forma planejada, determinadas atividades operacionais como parte do processo de aprendizagem, permitindo que os estagiários desenvolvam competências essenciais antes de avançarem para funções de maior responsabilidade.
Segundo Tiago Mavichian, abandonar completamente essa etapa pode comprometer a formação das futuras lideranças.
“Uma vaga de estágio deveria ser voltada ao desenvolvimento, aprendizado e exposição para que esse jovem, depois, ocupe posições como assistente ou analista. A empresa não pode simplesmente pular essa camada e desistir do futuro”, conclui.






















