A elevação das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros deve aumentar os desafios para empresas exportadoras e reforçar a importância da gestão de riscos e da diversificação de investimentos. A avaliação é do professor de Finanças e Tributos da FIPECAFI, Helder Medeiros França.
Segundo o especialista, a tarifa adicional de 25% aplicada pelo governo norte-americano pode gerar impactos relevantes sobre a economia brasileira, especialmente em setores mais dependentes do mercado dos Estados Unidos.
O cenário também coloca em debate uma possível resposta do Brasil por meio da Lei da Reciprocidade Econômica (Lei Federal nº 15.122/2025), embora a adoção de medidas de retaliação envolva fatores econômicos e políticos.
Produtos isentos e setores afetados
A lista de produtos que permaneceram isentos das novas tarifas contempla cerca de dois terços das mercadorias exportadas pelo Brasil aos Estados Unidos. Entre os itens preservados estão petróleo, café, carne bovina, pescados, produtos de origem animal, frutas, legumes, cereais, produtos químicos, minerais, medicamentos, fertilizantes, plásticos, madeira, metais, máquinas, equipamentos eletrônicos e produtos aeronáuticos.
Por outro lado, diversos produtos industriais passaram a ser atingidos pela medida. Entre eles estão etanol, máquinas agrícolas, vestuário, equipamentos elétricos, calçados, ferramentas de jardinagem, equipamentos de mineração, papel, açúcar orgânico, bens de capital, manufaturados e parte dos produtos químicos.
Impacto nas exportações
De acordo com estudos da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a nova política tarifária pode afetar aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
Levantamento do Global Trade Alert (GTA) citado pelo especialista indica que a tarifa média efetiva aplicada aos produtos brasileiros poderá atingir 18,2%, colocando o Brasil entre os países mais impactados pelas novas medidas comerciais dos Estados Unidos.
Além disso, França destaca que existe a possibilidade de novas elevações tarifárias decorrentes de investigações conduzidas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, que analisam possíveis práticas consideradas desleais no comércio internacional.
Empresas buscam alternativas
Enquanto o cenário permanece indefinido, setores da economia têm buscado ampliar a lista de produtos isentos das novas tarifas. Segundo o especialista, alguns segmentos já obtiveram avanços pontuais, como os de café solúvel, mel e pescados.
Para as empresas, o momento exige revisão dos planos de negócios, adaptação das cadeias produtivas e avaliação de alternativas de financiamento, incluindo linhas especiais de crédito que vêm sendo discutidas pelo governo federal.
Gestão financeira ganha importância
Na avaliação do professor, o ambiente de maior volatilidade econômica amplia a necessidade de planejamento financeiro e de estratégias capazes de reduzir riscos.
Entre as ferramentas apontadas estão a análise de investimentos, a avaliação de empresas, a gestão de riscos e o hedge accounting, práticas que podem contribuir para proteger ativos e aumentar a previsibilidade financeira em períodos de instabilidade.
O especialista observa ainda que o cenário ocorre em um momento de juros elevados no Brasil, com a taxa Selic em 14,25% ao ano, enquanto a inflação projetada pelo mercado para 2026 permanece acima do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, fatores que também influenciam as decisões de investimento das empresas.
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