As áreas financeira e fiscal das empresas atravessam um período de profunda transformação impulsionado pela Reforma Tributária, pela Inteligência Artificial e pela digitalização dos processos corporativos. O tema esteve no centro dos debates do Qive Conecta, evento promovido pela Qive, plataforma especializada em gestão de contas a pagar.
O encontro reuniu executivos de empresas como Azul, Google Cloud, Grupo Casas Bahia, The Fini Company e Swissport para discutir os principais impactos das mudanças regulatórias e tecnológicas na gestão corporativa.
- Reforma Tributária exige mais do que adaptação técnica
Um estudo apresentado pela Qive analisou 104 milhões de documentos fiscais emitidos entre janeiro e março deste ano e revelou que 78,5% das notas fiscais de empresas do regime normal já estão adequadas às novas regras da CBS e IBS.
Apesar disso, Isis Abbud alertou que a adequação técnica na emissão de documentos não representa maturidade operacional.
“A emissão não significa absolutamente nada de maturidade operacional. As empresas estão se adequando na emissão, mas as dinâmicas internas ainda carecem de fluidez para evitar impactos negativos de caixa”, afirmou.
O estudo também identificou baixa adesão entre pequenas empresas enquadradas no Simples Nacional e MEIs, levantando preocupação sobre possíveis perdas de competitividade na cadeia de fornecedores.
- Inteligência Artificial depende mais de pessoas do que de Tecnologia
Durante o evento, Rafael Hoshino destacou que a Inteligência Artificial já consegue analisar anomalias contábeis e até gerar automaticamente lançamentos de ajuste financeiro.
No entanto, segundo ele, o sucesso da IA depende principalmente da organização interna das empresas.
“O sucesso da aplicação tecnológica obedece à proporção 10-20-70: 10% dependem dos algoritmos, 20% da tecnologia e 70% dependem de fluxos bem desenhados e pessoas focadas na gestão de mudança”, explicou.
A avaliação reforça a percepção de que tecnologia sem processos estruturados tende a ampliar ineficiências operacionais.
- Fim das planilhas paralelas e atenção ao Split Payment
Os debates também apontaram que a nova dinâmica tributária exigirá maior integração entre sistemas financeiros, eliminando controles manuais e planilhas paralelas.
Erika Daguani afirmou que muitas empresas ainda operam com processos fragmentados e pouco automatizados.
“A nota nasce num lugar, passa por um sistema, pula para uma planilha de Excel, vai para uma pessoa aprovar. É difícil conseguir amarrar tudo isso e acreditar que não vai ter ineficiência”, destacou.
Ela alertou ainda para os desafios relacionados ao Split Payment, mecanismo previsto na Reforma Tributária que divide automaticamente os valores de tributos no momento da transação financeira.
Segundo Tatiane Mendonça, a eficiência operacional passou a ser diretamente ligada à saúde financeira das companhias.
“O Contas a Pagar é o termômetro da saúde da operação, enquanto o Contas a Receber dita a previsibilidade de caixa”, afirmou.
- Duplicata Escritural pode movimentar até R$ 12 trilhões
Outro tema em destaque foi a regulamentação da Duplicata Escritural pelo Banco Central do Brasil.
Rodrigo Furiato e Christian De Cico discutiram como o novo modelo poderá destravar entre R$ 10 trilhões e R$ 12 trilhões em crédito no mercado B2B.
Uma das novidades será o chamado “boleto dinâmico”, que permitirá o redirecionamento automático dos pagamentos mesmo quando recebíveis forem antecipados em diferentes instituições financeiras.
“Isso reduz fraudes e pagamentos em duplicidade”, explicou Christian.
Segundo os executivos, os testes assistidos começam no segundo semestre deste ano e a obrigatoriedade para grandes empresas deve ocorrer no primeiro trimestre seguinte.
- CFO do futuro precisa dominar operação e simplificar processos
Para Antonio Garcia, o avanço da Inteligência Artificial exige que os líderes financeiros fortaleçam primeiro os fundamentos operacionais das empresas.
“O gestor de finanças tem a obrigação de tratar a complexidade com simplicidade para que toda organização consiga acompanhar as transições sem pânico”, afirmou.
Segundo o executivo, o CFO moderno precisa conhecer profundamente a operação da empresa e compreender como falhas em outras áreas impactam diretamente os resultados financeiros e a estrutura de balanço.
Os debates do Qive Conecta reforçaram que o futuro das áreas financeira e fiscal será marcado pela integração entre tecnologia, automação, dados estruturados e capacidade humana de adaptação estratégica.






















