O Agronegócio brasileiro inicia 2026 sob pressão de crédito mais caro, margens comprimidas e estruturas financeiras mais rígidas. A sequência de reestruturações recentes no setor, como os processos de recuperação judicial envolvendo Amiu e Terra Santa, passou a ser citada no mercado como exemplo de como ciclos adversos prolongados afetam a capacidade de pagamento, comprometem cadeias de fornecimento e reduzem o apetite bancário por risco no campo.
Modelos amplamente utilizados no setor, como a expansão via arrendamentos agrícolas — comuns em grandes operações como as da SLC Agrícola — também evidenciam um ponto estrutural: a elevação de compromissos fixos de caixa em momentos de estresse financeiro.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o agronegócio concentra hoje 12,6 empresas em recuperação judicial a cada mil ligadas à agropecuária ou a produtores rurais (1,26%), índice seis vezes superior à média nacional e quase o dobro do registrado na indústria. A inadimplência rural alcançou 8,3%.
Crédito migra para fora dos bancos
Com instituições financeiras mais seletivas, o financiamento da safra passou a migrar para fora do sistema tradicional. As Cédulas de Produto Rural (CPRs) somaram R$ 121,9 bilhões no segundo semestre de 2025, alta de cerca de 30%. Estruturas como DIP Finance e financiamentos via fundos de crédito ganharam espaço como alternativas de liquidez.
O pano de fundo é um mercado de capitais que encerrou 2025 com mais de R$ 981 bilhões em emissões, criando um novo desenho para o crédito rural em 2026, mais estruturado e menos dependente do banco.
Segundo André Matos, CEO da MA7 Negócios, o principal desafio é o desalinhamento entre risco financeiro e ritmo operacional do campo. “Depois de uma quebra relevante, o banco precisa rever exposição e garantias. Só que a produção continua, o custo segue correndo e a empresa não pode simplesmente parar”, afirma.
Na avaliação dele, instrumentos como DIP Finance permitem atravessar o período mais crítico sem romper a cadeia produtiva. “O objetivo é manter a operação funcionando enquanto o passivo é ajustado, evitando que um problema financeiro vire um colapso operacional”, diz.
Reorganização do passivo ganha relevância
Apesar da expansão de CPRs, fundos de custeio e operações estruturadas, parte relevante das dívidas deixadas por quebras recentes permaneceu concentrada em obrigações com fornecedores e contratos desalinhados ao fluxo de caixa.
Empresas especializadas passaram a atuar na compra desses créditos deteriorados, assumindo dívidas com desconto e reorganizando prazos e condições de pagamento compatíveis com a realidade operacional das companhias. Em um mercado em que o crédito migra para estruturas mais sofisticadas, mas deixa lacunas no tratamento do passivo existente, esse tipo de operação busca reduzir o efeito cascata das quebras e estabilizar a cadeia produtiva.
Mercado mais segmentado em 2026
A tendência para 2026 aponta para um mercado de crédito mais segmentado, no qual diferentes instrumentos cumprem funções específicas ao longo do ciclo financeiro das empresas. Enquanto fundos de custeio, CPRs e operações estruturadas atendem a novas demandas de financiamento, a reorganização das dívidas comprometidas tornou-se etapa essencial para garantir sustentabilidade.
“O que estamos vendo no agro é um processo de ajuste. Quem consegue organizar o passivo primeiro preserva a operação e mantém portas abertas para o mercado”, afirma Matos. Segundo ele, a combinação entre crédito privado e reorganização de dívidas tende a ganhar espaço enquanto o setor conviver com margens pressionadas e maior seletividade. “O crédito continua existindo, mas exige leitura de risco mais precisa e decisões mais rápidas. Quem entende isso atravessa o ciclo, quem ignora tende a ficar pelo caminho”, conclui.




















