O avanço da Inteligência Artificial (IA) impõe um dos maiores desafios estruturais da atualidade: garantir energia suficiente, estável e sustentável para sustentar a expansão dos data centers. De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global por eletricidade pode mais que dobrar até 2026, impulsionada pela expansão dessas estruturas, pela mineração de criptomoedas e pelo crescimento das aplicações baseadas em IA.
No Brasil, o cenário acompanha essa tendência. Estima-se que os quatro primeiros complexos de data centers voltados à IA tenham consumo equivalente ao de 16,4 milhões de residências. Embora os data centers representem atualmente cerca de 1,7% do consumo elétrico nacional — índice próximo à média global de 2% —, o ritmo de expansão acende um alerta para a capacidade de geração, transmissão e distribuição de energia no país.
O desafio não está apenas na produção de eletricidade, mas na infraestrutura necessária para suportar esse crescimento. A matriz energética brasileira, majoritariamente renovável, coloca o país em posição estratégica no cenário internacional, especialmente diante de empresas que buscam reduzir sua pegada de carbono. O Nordeste, por exemplo, concentra 93% da geração eólica nacional, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). No entanto, a limitação na capacidade de escoamento da energia produzida reduz o potencial de atração de investimentos em larga escala.
Além da infraestrutura, há implicações ambientais e éticas relevantes. Mesmo quando alimentados por fontes renováveis, os data centers demandam sistemas intensivos de resfriamento, geram resíduos tecnológicos e impactam cadeias produtivas globais. Isso exige alinhamento entre empresas de tecnologia e setor energético para promover eficiência energética, neutralização de emissões, reaproveitamento de resíduos e modernização de equipamentos.
No campo regulatório, o Brasil avança com o Projeto de Lei 2.338/2023, conhecido como Marco Legal da IA, que busca garantir segurança jurídica, proteção de direitos fundamentais e previsibilidade para investimentos. A consolidação dessa legislação tende a fortalecer o ambiente de negócios e estimular aportes bilionários em infraestrutura energética e tecnológica.
Paralelamente, políticas industriais vêm sendo estruturadas para fomentar o setor. O Redata, inserido na Política Nacional de Data Centers (PNDC) e vinculado à Nova Indústria Brasil (NIB), cria regime especial de tributação com incentivos fiscais para aquisição de equipamentos de TIC. A medida prevê isenção de PIS/Pasep, Cofins e IPI, além de contrapartidas como investimento mínimo em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Somam-se a esse programa mecanismos já consolidados, como a Lei de TICs, a Lei do Bem, e linhas de financiamento da Finep e do BNDES, voltadas ao fortalecimento da Inovação tecnológica, modernização industrial e ampliação da capacidade produtiva.
O futuro da Inteligência Artificial está diretamente ligado à capacidade energética dos países. Sem expansão estruturada e sustentável, há risco de desaceleração no desenvolvimento tecnológico. Por outro lado, se conseguir alinhar matriz limpa, infraestrutura moderna e segurança regulatória, o Brasil pode se consolidar como um dos principais polos globais de data centers sustentáveis.
O desafio agora é transformar potencial em planejamento estratégico de longo prazo, garantindo que a evolução da IA caminhe lado a lado com a segurança energética e a responsabilidade ambiental.




















