O Brasil forma mais mulheres cientistas do que homens. Elas representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação e também são maioria entre as estudantes do sistema, segundo dados do Plano Nacional de Pós-Graduação 2025–2029 (PNPG). No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, o Ministério da Educação (MEC) destacou esses avanços e reafirmou o compromisso de ampliar a equidade de gênero na carreira acadêmica.
Apesar do protagonismo feminino na formação científica, a presença das mulheres diminui nos cargos de maior estabilidade e decisão. Embora sejam maioria entre doutoras no Brasil há mais de duas décadas, elas ocupam apenas 43% do corpo docente da pós-graduação. O cenário evidencia o chamado “efeito tesoura”, em que a participação feminina se reduz à medida que a carreira acadêmica avança.
A desigualdade é ainda mais acentuada nas áreas de STEM — ciência, Tecnologia, engenharia e matemática. Em engenharia, apenas 23% do corpo docente é composto por mulheres. Em ciências exatas e da terra, o percentual é de 24%. O PNPG aponta o período da maternidade como um dos fatores que mais impactam negativamente a progressão da carreira científica feminina.
Para enfrentar essas disparidades, o MEC tem adotado medidas voltadas à permanência e ao avanço das mulheres na ciência. Uma das principais ações é a política de concessão de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), na qual as mulheres já representam 58% das bolsistas no país e 53% das beneficiadas com bolsas no exterior.
Em 2024, o ministério ampliou em até 180 dias o prazo de conclusão de cursos e programas de bolsa para mães que passaram por parto, adoção ou obtiveram guarda judicial para fins de adoção. Nos casos de crianças ou adolescentes com deficiência, o período pode ser dobrado.
A Capes também mantém o Programa Abdias Nascimento, retomado em 2023, que reserva 50% das bolsas de missões no exterior para pesquisadoras autodeclaradas pretas, pardas, indígenas, pessoas com deficiência ou com altas habilidades. Outra iniciativa é o Prêmio Futuras Cientistas, voltado ao reconhecimento de meninas do ensino médio que desenvolvem projetos nas áreas de STEM.
Essas ações são articuladas pelo Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero da Capes, criado em 2024, com o objetivo de ampliar a representatividade feminina em posições de liderança e decisão na pós-graduação.
Entre as boas práticas destacadas está o projeto “Energizando a Equidade: meninas e mulheres impulsionando a transição energética”, coordenado pela professora Aline Cristiane Pan, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A iniciativa conecta universidades federais, conselhos profissionais, redes de mulheres da área de energia e escolas públicas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, aproximando meninas do ensino fundamental da produção científica.
A transição energética, que envolve a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis, demanda formação em áreas técnicas onde as mulheres ainda são minoria. No setor de energia solar, por exemplo, elas ocupam cerca de 20% das vagas. “As mulheres são sub-representadas na área de energia, e isso começa ainda na formação”, explica Aline Pan.
Uma das estudantes participantes do projeto é Luiza da Rosa Machado, de 14 anos, aluna da Escola Estadual de Educação Básica Prudente de Morais, em Osório (RS). Ao lado de outras quatro colegas, ela desenvolveu em 2025 o trabalho “Fogão solar: aproveitamento da energia solar e fundamentos físicos envolvidos”, utilizando materiais de baixo custo para criar um equipamento movido a energia solar. As alunas receberam bolsas de iniciação científica júnior.
“Quando eu ouvia a palavra ‘cientista’, sempre pensava em um homem misturando poções em um laboratório”, relata Luiza. “Com esse projeto, vi que vai muito além disso e que existe espaço também para mulheres trabalharem.”




















