O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” tem avançado no Brasil, impulsionado pela promessa de perda de peso rápida e eficaz. Inicialmente indicados para o tratamento de diabetes tipo 2 e da obesidade, esses medicamentos injetáveis passaram a ser procurados também por pessoas acima dos 60 anos — faixa etária que exige atenção redobrada.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o país possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca ,de 15% da população. O envelhecimento acelerado amplia o debate sobre tratamentos voltados a esse público, especialmente quando envolvem medicamentos que afetam o metabolismo e o apetite.
Como atuam as canetas emagrecedoras
Esses medicamentos agem imitando hormônios ligados à saciedade, reduzindo a fome e retardando o esvaziamento do estômago. O resultado costuma ser a perda significativa de peso corporal em um curto período.
No entanto, segundo Vilson Campos, geriatra e coordenador do curso de Medicina da Afya Centro Universitário de Pato Branco, os efeitos em idosos podem ser mais intensos e exigir acompanhamento rigoroso.
“Entre os principais efeitos adversos estão náuseas, vômitos, diarreia, constipação e redução importante do apetite. Em pessoas mais jovens, esses sintomas já exigem monitoramento. Em idosos, podem representar riscos maiores”, afirma.
Riscos aumentados na terceira idade
Na população idosa, a redução da ingestão alimentar pode levar a desidratação, desequilíbrios nutricionais e até quadros de desnutrição.
Outro ponto de atenção é a perda de massa muscular, que já ocorre naturalmente com o envelhecimento — processo conhecido como sarcopenia. A perda de peso acelerada pode agravar esse quadro, aumentando o risco de quedas, fraturas e perda de autonomia.
“Nem todo idoso precisa perder peso, e quando há indicação, isso deve ocorrer de forma planejada. A perda acelerada pode comprometer a funcionalidade e trazer mais prejuízos do que benefícios”, reforça o especialista.
Critérios médicos e regulamentação
No Brasil, a venda desses medicamentos exige prescrição médica com retenção de receita, conforme regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, medida que busca conter o uso indiscriminado e a automedicação.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que medicamentos para obesidade sejam indicados principalmente para pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30, ou acima de 27 quando há doenças associadas, sempre combinados a mudanças no estilo de vida, como alimentação equilibrada e prática de atividade física.
Para idosos, no entanto, a avaliação deve ir além do IMC, considerando fatores como composição corporal, nível de fragilidade e capacidade funcional.
Quando o risco pode superar o benefício
Embora possam trazer benefícios em casos específicos — como idosos com obesidade associada a doenças metabólicas ou cardiovasculares —, o uso sem acompanhamento médico pode gerar consequências importantes.
Entre os principais riscos estão desidratação, queda de pressão arterial, perda acentuada de massa muscular, interações medicamentosas e aumento do risco de quedas e hospitalizações.
A decisão de iniciar o tratamento deve ser individualizada e acompanhada de suporte nutricional e estímulo à atividade física voltada à preservação muscular.
Debate tende a crescer
Com o envelhecimento da população brasileira e a popularização dessas medicações nas redes sociais, a tendência é de intensificação do debate sobre o uso seguro dessas substâncias.
Para o especialista, o foco deve estar no equilíbrio entre benefícios e riscos, especialmente na terceira idade.
“No caso dos idosos, emagrecer não pode significar perder saúde. A orientação médica especializada continua sendo o principal fator de segurança em tratamentos que envolvem mudanças metabólicas”, conclui.




















