Existe uma ideia confortável e profundamente equivocada de que negócios obedecem a ciclos previsíveis, sazonalidades claras e calendários que autorizam o sócio a entrar e sair do jogo. Como se a empresa pudesse funcionar em “modo automático” enquanto o dono observa de longe, analisa tendências, espera o próximo ano ou aguarda o próximo movimento do mercado. Essa lógica pode até servir para relatórios. Não serve para construir empresas relevantes.
O sócio não deveria atuar de forma sazonal. Ele não atua por trimestres, nem por modismos. O papel do sócio é contínuo, diário, permanente. Não existe “baixa temporada” para quem decide empreender. O negócio acontece todos os dias, em todas as semanas, em todos os contextos. E quando o sócio se ausenta da dinâmica real da empresa, o vazio não fica neutro: ele é ocupado por mediocridade, acomodação ou decisões de curto alcance.
No Brasil, essa negligência é ainda mais paradoxal. Trata-se de uma das maiores economias do mundo, com um mercado interno vasto, diversidade setorial e uma capacidade de geração de negócios que poucos países possuem. Não há limite estrutural para crescer. O limite quase sempre está no próprio sócio, quando ele confunde delegar com abandonar, estratégia com discurso, visão com distância.
O empreendedor é, por definição, o desbravador. É quem abre caminhos antes que eles estejam claros. Não existe legado construído por alguém que apenas observa indicadores ou valida decisões alheias. Legado se constrói na presença, na inquietação produtiva, na capacidade de fazer perguntas incômodas e de sustentar decisões necessárias. O sócio que não está à frente deixa de liderar o futuro da empresa e passa apenas a reagir a ele.
Há também uma escolha fundamental que precisa ser feita com honestidade: qual é o posicionamento real do negócio? Algumas empresas nasceram para ser boutiques, operações menores, altamente especializadas, com ambições proporcionais ao seu desenho. Isso é legítimo. O problema surge quando o discurso é de império, mas a prática é de boutique. Ou quando o sócio deseja escala, relevância e impacto, mas opera apenas esporadicamente.
Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que o balanço deveria ser feito todos os dias. E há mais verdade nisso do que se admite. O balanço anual é um ritual de contabilidade / controladoria. O verdadeiro balanço acontece diariamente: na leitura correta do time, na percepção de riscos, na identificação de oportunidades e, principalmente, na clareza sobre onde a empresa está e para onde está indo. Isso exige presença ativa do sócio.
Construir um império saudável, e aqui império não é sinônimo de grandiosidade vazia, mas de relevância sustentável, exige liderança constante. Não se trata de ser neurótico, centralizador ou irrelevante. Trata-se de não abandonar o volante. Porque, no fim, empresas não quebram apenas por crises externas. Muitas entram em colapso porque o próprio sócio, aos poucos, deixa de cuidar do fogo que mantém o negócio vivo. E, sem perceber, acaba sendo ele mesmo quem coloca a empresa em chamas.




















