A concessão corporativa atravessa uma transformação profunda. Ela já não depende apenas do que as organizações comunicam, mas de como algoritmos interpretam, reorganizam e amplificam essas mensagens. Em um ecossistema marcado por mecanismos de busca com inteligência artificial, feeds personalizados e assistentes virtuais, a percepção pública é cada vez mais construída por leituras algorítmicas — e não apenas humanas. Na América Latina, esse fenômeno se torna ainda mais sensível diante da alta polarização ideológica, da velocidade de circulação do conteúdo e da fragmentação do ambiente midiático.
Relatórios de Clima Emocional (ECR), produzidos pela Delta Analytics BV em parceria com a Latam Intersect, analisaram a percepção sobre a inteligência artificial na mídia e no ambiente digital no Brasil, Argentina, Peru, Colômbia e México. Os dados revelam uma percepção ambivalente da IA na região, marcada simultaneamente por expectativa e medo.
No ambiente digital, Brasil (36,66%) e Peru (34,49%) apresentam maior predominância de expectativa, com destaque para o Brasil, que também registra 34,48% de felicidade associada ao tema. Já o medo supera a expectativa na Argentina (43,60%), na Colômbia (41,56%) e, de forma mais intensa, no México (53,89%). No noticiário, a expectativa cresce na Argentina (49,07%), no Brasil (45,81%) e no Peru (40,36%), enquanto o medo segue dominante no México (58,72%) e permanece elevado na Colômbia (41,9%). O conjunto dos dados evidencia que a percepção sobre IA varia conforme o país e o ambiente informacional, reforçando a necessidade de narrativas claras, contextualizadas e consistentes para a construção da confiança corporativa.
“Hoje, os algoritmos não apenas distribuem conteúdo, como também moldam a percepção pública de uma marca ou instituição. Essa é a mudança estrutural: a concessão não se constrói mais apenas com base no que dizemos, mas também em como os sistemas interpretam o que dizemos”, explica Roger Darashah, sócio e cofundador da Latam Intersect. Nesse contexto, comunicados de imprensa, entrevistas e declarações públicas podem ser resumidos, reinterpretados ou enquadrados por modelos de IA que eliminam nuances e priorizam aspectos emocionais, influenciando diretamente a forma como públicos, jornalistas e stakeholders compreendem uma organização.
A partir de 2026, essa lógica tende a se intensificar. Os algoritmos passam a amplificar conteúdos que despertam emoções como indignação ou surpresa e a reduzir a visibilidade de materiais classificados como controversos, mesmo quando relevantes. Além disso, interpretações iniciais frequentemente se consolidam como narrativa dominante, ainda que informações mais precisas surjam posteriormente. Esse cenário torna a confiança mais frágil, mas também mais previsível para organizações que compreendem quais sinais os sistemas priorizam: clareza de mensagem, consistência narrativa, rapidez de resposta e respaldo em fontes confiáveis.
Se os algoritmos se tornam coprodutores da confiança, a gestão da narrativa passa a enfrentar um novo desafio: parte dela já não está sob controle exclusivo das organizações, da mídia ou do público, mas dos próprios sistemas tecnológicos.
A América Latina enfrenta riscos crescentes associados ao uso da inteligência artificial, como deepfakes políticos e corporativos, campanhas automatizadas que simulam consenso e estratégias de desinformação cada vez mais sofisticadas. “A desinformação não é mais um acidente. Hoje, as organizações não enfrentam rumores espontâneos, mas campanhas planejadas que usam Tecnologia, segmentação e narrativas desenhadas para parecer legítimas”, alerta Claudia Daré, fundadora e diretora da Latam Intersect. Em mercados polarizados e com lacunas regulatórias, esses ataques podem corroer a confiança pública de forma silenciosa, sem depender de viralização massiva ou acusações explícitas.
Diante desse cenário, as organizações que conseguem preservar sua reputação não são necessariamente as que reagem mais rápido, mas aquelas que constroem narrativas sólidas, verificáveis e consistentes antes que crises aconteçam. Consistência, documentação pública, alinhamento de porta-vozes e clareza de propósito tornam-se estratégicos, pois alimentam os algoritmos com sinais estáveis, reduzindo espaço para interpretações equivocadas ou maliciosas.
Ética narrativa como pilar reputacional
Transparência, verificabilidade e responsabilidade deixam de ser apenas valores corporativos e passam a funcionar como sinais técnicos monitorados e priorizados pelos sistemas de IA. “Em 2026, o verdadeiro desafio não será apenas quais ferramentas de IA as organizações usam, mas o quão ética, consistente e bem estruturada é sua estratégia central de comunicação. Apenas marcas que combinarem sensibilidade humana, inteligência artificial e narrativas autênticas conseguirão construir reputações sólidas”, afirma Claudia Daré.
Em um ambiente dominado por agentes independentes, busca conversacional e distribuição algorítmica, a confiança é construída diariamente. “A IA pode acelerar uma crise ou fortalecer a confiança, mas tudo depende da base que encontra. Se a narrativa for sólida e consistente, a tecnologia a amplifica. Caso contrário, ela a expõe. A confiança do futuro não é improvisada: é construída todos os dias”, resume Darashah.
Para empresas, marcas e organizações na América Latina, o recado é claro: compreender como os algoritmos funcionam é tão importante quanto entender o público. Quem integrar ética, consistência e estratégia à sua comunicação estará mais preparado para manter — e liderar — a confiança na era da inteligência artificial.






















