Por trás dos números que indicam vidas poupadas pela vacinação contra a covid-19 no Brasil, estão histórias pessoais marcadas pela perda e pela sensação de que o desfecho poderia ter sido diferente. É o caso de Paola Falceta, vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), e de Ana Lucia Lopes, que perdeu o companheiro, Cláudio, em maio de 2021.
Ana Lucia lembra que foi vacinada apenas um mês após a morte do parceiro. Ambos tinham a mesma idade e, portanto, estariam no mesmo grupo prioritário. A proximidade entre a perda e a chegada da vacina torna o luto ainda mais doloroso. Para ela, a revolta está em pensar quantas pessoas poderiam ter tido a chance de sobreviver se o acesso aos imunizantes tivesse ocorrido antes.
Esses relatos individuais reforçam conclusões apontadas por estudos e investigações oficiais. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, realizada em 2021 no Senado Federal, concluiu que o governo federal impôs uma “escassez” de doses de vacinas, fator considerado determinante para o aumento do número de casos e de mortes, além de contribuir para a disseminação de novas variantes do vírus no país.
Entre as provas analisadas pela CPI estão as propostas feitas pela farmacêutica Pfizer em agosto de 2020, oferecendo ao Brasil 1,5 milhão de doses a serem entregues ainda no primeiro ano da pandemia. Segundo a comissão, o governo brasileiro não respondeu às ofertas naquele momento.
No relatório final, a CPI afirmou que a aquisição de vacinas deveria ter sido a principal medida de prevenção à disseminação do coronavírus e de proteção à saúde da população, mas que essa providência foi negligenciada. O documento aponta que as negociações do governo federal sofreram atrasos considerados injustificáveis e intencionais, impactando diretamente o cronograma de imunização.
A comissão recomendou o indiciamento de 68 pessoas, entre elas o então presidente Jair Bolsonaro e os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga. O pedido, no entanto, foi arquivado em julho de 2022, a partir de decisão do então procurador-geral da República, Augusto Aras.
O tema voltou à esfera judicial no ano passado, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para apurar os fatos apontados pela CPI.
Cinco anos após a primeira dose aplicada no país, o início da vacinação contra a covid-19 permanece como um símbolo de esperança e avanço científico, mas também como um lembrete das consequências humanas de decisões políticas e administrativas em um dos períodos mais críticos da história recente do Brasil.
Com informação agência Brasil.




















