Levantamento da TF8 Capital sobre seis ciclos presidenciais mostra comportamentos distintos de dólar, juros e pedidos de recuperação judicial; para 2026, empresas devem olhar além da eleição e acompanhar crédito, custo financeiro e geração de caixa
O histórico dos seis últimos ciclos eleitorais presidenciais brasileiros mostra que eleições, isoladamente, não explicam o comportamento dos pedidos de recuperação judicial. A análise realizada pela TF8 Capital revela trajetórias distintas para dólar, taxa Selic e recuperações judiciais entre os períodos avaliados, sem uma combinação recorrente entre alta do câmbio, elevação dos juros e aumento dos pedidos de recuperação.
O levantamento, elaborado em agosto de 2026, cruzou dados de dólar, taxa Selic e pedidos de recuperação judicial entre 2002 e 2022. A análise traz uma referência importante para o atual ano eleitoral: mais do que tentar antecipar os efeitos da disputa presidencial sobre as empresas, é necessário observar as condições de crédito, o custo financeiro, o endividamento e a capacidade de geração de caixa dos negócios.
A TF8 Capital, assessoria de investimentos dedicada ao atendimento de clientes de alta renda e private, aponta que um dos resultados que chama a atenção está justamente no comportamento das recuperações judiciais. Considerando a série da Serasa Experian, nos quatro anos eleitorais em que há comparação integral com o ano anterior, 2010, 2014, 2018 e 2022, o número de pedidos caiu. As reduções foram de 29,1% em 2010, 5,3% em 2014, 0,8% em 2018 e 6,5% em 2022.
Em 2018, por exemplo, foram registrados 1.408 pedidos de recuperação judicial, o maior volume entre os anos eleitorais analisados. Ainda assim, o número ficou praticamente estável em relação ao ano anterior, com queda de 0,8%. O dado ajuda a mostrar que um volume absoluto elevado de recuperações judiciais em um ano eleitoral não significa, por si só, que tenha ocorrido uma deterioração provocada pela eleição.
Para Alexandre Farkuh, CEO da TF8 Capital, os dados recomendam cautela ao estabelecer relações diretas de causa e efeito entre o calendário eleitoral e a saúde financeira das empresas.
“O histórico recomenda cautela com relações diretas de causa e efeito. Eleições podem ampliar a incerteza e influenciar preços de ativos e decisões econômicas, mas não atuam isoladamente. Inflação, política fiscal, cenário externo, atividade econômica e, principalmente, disponibilidade e custo do crédito também interferem diretamente na saúde financeira das empresas”, afirma.
Cenário eleitoral e movimentos econômicos
O comportamento das principais variáveis econômicas nos ciclos analisados também enfraquece a ideia de que anos eleitorais produzam, necessariamente, uma deterioração uniforme das condições financeiras.
Em 2002, o dólar subiu 52,3%, passando de R$ 2,3204 no fim de 2001 para R$ 3,5333 no encerramento daquele ano. No mesmo período, a meta da Selic passou de 19% para 25% ao ano, configurando o movimento mais intenso de desvalorização cambial e aperto monetário entre os ciclos analisados.
O cenário foi diferente nas eleições seguintes. Em 2006, o dólar recuou 8,7%, de R$ 2,3407 para R$ 2,1380, enquanto a Selic caiu de 18% para 13,25% ao ano. Em 2010, o dólar recuou enquanto os juros subiram. Já em 2014 e 2018, o câmbio avançou, mas a política monetária seguiu trajetórias diferentes. Em 2022, o dólar caiu 6,5%, enquanto a Selic passou de 9,25% para 13,75% ao ano.
O levantamento faz uma ressalva metodológica em relação a 2002. A recuperação judicial, no formato atual, foi instituída em 2005 pela Lei nº 11.101. Por isso, embora a análise das variáveis econômicas contemple o ciclo eleitoral de 2002, a comparação entre pedidos de recuperação judicial e os demais indicadores começa efetivamente em 2006.
No conjunto dos seis ciclos, o dólar subiu em três anos eleitorais, 2002, 2014 e 2018, e caiu em outros três, 2006, 2010 e 2022. A Selic terminou acima do nível inicial em quatro dos seis períodos, 2002, 2010, 2014 e 2022. Esses movimentos, porém, não coincidiram de maneira uniforme com o comportamento dos pedidos de recuperação judicial.
Para Farkuh, essa ausência de um padrão reforça a necessidade de analisar o ciclo econômico de forma mais ampla. Condições de crédito, custo do dinheiro, atividade econômica, política fiscal, inflação e cenário externo podem se combinar de maneiras diferentes e determinar a intensidade da pressão sobre o caixa corporativo.
“Para a empresa, o ponto crucial é entender como essas variáveis chegam ao seu balanço e afetam sua capacidade de financiar a operação e honrar compromissos”, observa.
O problema aparece primeiro no caixa
Na avaliação da TF8 Capital, a recuperação judicial deve ser analisada dentro de uma trajetória mais ampla de deterioração financeira, e não como consequência automática de um evento político ou econômico específico.
“Uma empresa dificilmente chega à recuperação judicial por causa de um único evento. Em geral, há um processo anterior de deterioração financeira. O caixa vai sendo pressionado, o crédito fica mais caro ou mais restrito, as margens diminuem e a capacidade de refinanciamento se reduz. É essa combinação que precisa ser observada”, diz Farkuh.
Juros elevados aumentam as despesas financeiras, enquanto a restrição ao crédito dificulta refinanciamentos. Endividamento elevado, queda de receita e perda de margem também podem se acumular ao longo do tempo até comprometer a capacidade de geração de caixa.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que um choque econômico e um pedido de recuperação judicial não necessariamente ocorrem no mesmo momento. Pode haver uma defasagem entre a pressão inicial sobre as finanças da companhia e a decisão de recorrer ao Judiciário. Antes disso, empresas podem consumir reservas, renegociar compromissos, vender ativos ou buscar novas fontes de financiamento.
“A pergunta mais adequada talvez não seja se as eleições provocam recuperações judiciais, mas de que maneira a combinação entre câmbio, custo do crédito e incerteza econômica durante esses períodos afeta o caixa das empresas e em quanto tempo essa pressão aparece nos pedidos apresentados ao Judiciário”, avalia Farkuh.
É justamente essa defasagem que, segundo a TF8 Capital, deve entrar no radar das empresas em 2026. O fato de o histórico não mostrar uma relação direta entre eleições e recuperações judiciais não significa que o ambiente eleitoral seja irrelevante, mas que seus eventuais efeitos precisam ser analisados em conjunto com as demais condições econômicas e financeiras.
O que observar em 2026
Para as empresas, portanto, o principal risco não está necessariamente no calendário eleitoral, mas na possibilidade de um ambiente de maior incerteza se somar a condições mais restritivas de crédito, custo financeiro elevado e menor capacidade de absorver oscilações de receita, margens ou câmbio.
“Em 2026, mais importante do que tentar prever o efeito da eleição é entender a capacidade de resistência financeira da própria empresa. Quanto maior o endividamento e menor a liquidez, mais sensível o negócio tende a ficar a mudanças no crédito, nos juros, no câmbio ou na atividade econômica”, ressalta Farkuh.
Na avaliação do executivo, antecipar essa leitura permite que as empresas atuem antes que uma situação de estresse se transforme em uma crise de liquidez.
“O momento de discutir estrutura de capital, renegociação de dívida, geração de caixa e alternativas de financiamento é antes de o problema chegar ao limite. A eleição pode adicionar incerteza, mas o que determina a capacidade de atravessar esse período é a estrutura financeira com que a empresa chega a ele”, diz.
Metodologia
A análise da TF8 Capital, elaborada em agosto de 2026, considera os seis ciclos de eleições presidenciais entre 2002 e 2022 e utiliza como fontes dados da Serasa Experian e do Banco Central do Brasil.
Para as recuperações judiciais, foram considerados os pedidos requeridos, e não apenas processos deferidos ou recuperações concedidas. A comparação anual utiliza a série histórica da Serasa Experian adotada no levantamento da TF8 Capital, com os dados disponíveis na data de elaboração do estudo. Como a recuperação judicial no formato atual foi instituída pela Lei nº 11.101, de 2005, as comparações desse indicador com os demais dados econômicos começam efetivamente no ciclo de 2006.
Nos quatro anos eleitorais que permitem comparação integral dos pedidos de recuperação judicial com o ano imediatamente anterior, 2010, 2014, 2018 e 2022, foi calculada a variação percentual entre os requerimentos registrados no ano eleitoral e os do ano precedente.
Para o dólar, foram comparadas as cotações de fechamento adotadas no levantamento no encerramento do ano anterior e do respectivo ano eleitoral, conforme dados do Banco Central. Para a Selic, foram consideradas as metas vigentes no início e no fim de cada ano analisado.
O estudo é uma análise histórica e descritiva dos indicadores. Os resultados mostram a ausência de um padrão recorrente entre eleições, câmbio, taxa de juros e pedidos de recuperação judicial, sem estabelecer relação de causalidade entre essas variáveis.
Mais sobre o especialista
Alexandre Bonilha Farkuh é fundador da TF8 Capital, grupo financeiro que atua em três frentes de negócios: Wealth Management, Assessoria de Investimentos e Serviços Financeiros.
Formado em Administração de Empresas, possui 20 anos de experiência no mercado financeiro, com ampla atuação nos mercados de crédito e investimentos, tanto no Brasil quanto no exterior (onshore e offshore).
Antes de fundar a TF8 Capital, construiu sólida trajetória no setor bancário, com passagens por instituições como Banco ABC Brasil, Banco Pine, Banco Safra e Safra National Bank of New York.
Mais sobre a TF8 Capital
A TF8 Capital é uma casa financeira voltada à construção, proteção e gestão de patrimônio, com atuação integrada em Assessoria de Investimentos, Serviços Financeiros e Wealth Management. A empresa desenvolve estratégias personalizadas de acordo com o perfil, os objetivos e o momento de vida de cada cliente, combinando alocação de investimentos, planejamento patrimonial, proteção, liquidez e visão de longo prazo.
Com presença em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a TF8 tem como pilares a independência, a excelência técnica e a construção de relações de confiança. O nome TF8 deriva do conceito Trust For Infinity – confiança que atravessa gerações e traduz a proposta da companhia de apoiar investidores e famílias não apenas na gestão de recursos, mas na preservação e perpetuação de seus patrimônios e legados.






















