O crédito próprio vem ganhando espaço nas estratégias do varejo brasileiro, impulsionado pela digitalização dos negócios e pelo uso crescente de dados para compreender o comportamento dos consumidores. Além de facilitar o pagamento, os cartões vinculados às próprias redes varejistas passaram a ser utilizados como instrumentos de fidelização, estímulo à recorrência e personalização de ofertas.
Um levantamento da Retail Payment Ecosystem (RPE), realizado com base em 15,9 bilhões de registros processados, mostra que o gasto médio realizado com cartões próprios do varejo chegou a R$ 305,82, enquanto o tíquete médio dos cartões bancários foi de R$ 143,52. A diferença representa um valor 113% maior nas compras feitas com o meio de pagamento próprio das redes.
Segundo os dados, os meios de pagamento próprios já correspondem a 15,52% do volume vendido pelas redes varejistas e cresceram cerca de 70% nos últimos dois anos.
Maior frequência de compras
A utilização de cartões próprios também está associada a uma maior frequência de consumo. Entre clientes de redes supermercadistas que utilizam os cartões das próprias marcas, a recorrência média passou de 15,66 para 29,08 visitas por ano.
O levantamento aponta ainda que 83,06% dos consumidores com mais de dez anos de relacionamento com as redes mantêm seus pagamentos em dia. Os dados indicam uma relação entre a permanência do cliente, a utilização dos serviços financeiros oferecidos pelo varejista e a frequência de consumo.
A utilização de informações como histórico de compras, frequência de pagamento e perfil de consumo permite às empresas desenvolver estratégias mais direcionadas. Em um cenário de juros elevados e maior seletividade na concessão de crédito, o acesso a dados próprios também pode contribuir para avaliações mais precisas do perfil financeiro dos consumidores.
Digitalização amplia uso de dados
A expansão do crédito próprio ocorre paralelamente à transformação digital do sistema financeiro. A Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026 mostra que 80% das instituições financeiras consideram a experiência do cliente uma prioridade estratégica.
O levantamento também aponta o avanço do uso de inteligência artificial e inteligência artificial generativa em diferentes etapas da jornada bancária, incluindo processos de entrada e verificação da identidade dos clientes.
Os canais digitais já concentram a maior parte das operações. Em 2025, 78% das transações bancárias foram realizadas por meio de celulares. Considerando também outros canais digitais, como internet banking, a participação chegou a 83%.
Outro fator apontado pela pesquisa é a expansão do Open Finance. O Brasil alcançou 102,8 milhões de consentimentos ativos, número 122% superior ao registrado no ano anterior. O sistema permite o compartilhamento autorizado de informações financeiras entre instituições, ampliando as possibilidades de desenvolvimento de produtos e serviços personalizados.
Crédito como ferramenta de relacionamento
Com a integração entre pagamentos, crédito e dados, o varejo passa a utilizar informações financeiras também para orientar estratégias comerciais. Benefícios associados aos cartões próprios, por exemplo, podem ser utilizados para incentivar novas compras, aumentar o valor das cestas e estimular a frequência dos consumidores.
O movimento representa uma mudança na função tradicional do crédito dentro das empresas. Em vez de atuar apenas como mecanismo de financiamento das compras, o crédito próprio pode gerar informações sobre os hábitos de consumo e contribuir para ações de relacionamento com os clientes.
A análise integrada desses dados também pode ajudar as empresas a reduzir custos de aquisição e desenvolver ofertas de acordo com diferentes perfis de consumidores, desde que observadas as regras de proteção e uso de dados pessoais.
Gestão digital de frotas amplia mercado corporativo
A digitalização dos serviços financeiros também alcança o mercado corporativo. Na gestão de frotas, cartões específicos podem ser utilizados para controlar despesas com abastecimento, manutenção, pedágios e outras operações relacionadas aos veículos.
A substituição de processos manuais por sistemas digitais permite centralizar informações, acompanhar gastos e automatizar parte dos controles administrativos. A integração entre meios de pagamento e gestão operacional pode contribuir para reduzir custos e aumentar a eficiência das empresas.
A tendência é de maior integração entre crédito, pagamentos, dados e ferramentas de gestão. No varejo, essa transformação amplia a capacidade das empresas de conhecer seus consumidores e utilizar os serviços financeiros como parte da estratégia comercial.
O tema deve estar entre as discussões do FEBRABAN Tech 2026, evento que reúne representantes do setor financeiro e de tecnologia para debater a transformação digital e a evolução dos serviços financeiros no Brasil.






















