O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) nos últimos anos trouxe promessas de automação quase total no ambiente corporativo. No entanto, à medida que a Tecnologia começa a ser aplicada de forma mais concreta nas empresas, cresce também um movimento de revisão dessas expectativas. Em vez de substituir profissionais, muitas organizações passaram a enxergar a IA como uma ferramenta para ampliar capacidades humanas e melhorar processos internos.
Essa é a visão defendida por Augusto Lyra, CEO da Everflow, empresa especializada em soluções tecnológicas de gestão empresarial. Segundo ele, parte da ansiedade gerada pela IA decorre de uma narrativa exagerada sobre o potencial da tecnologia.
“Na nossa visão, o problema não é a IA em si, mas a forma como ela vem sendo apresentada ao mercado. Quando teve o boom da inteligência artificial, muita gente começou a achar que ela ia fazer tudo sozinha, que bastava perguntar e pronto. Na nossa visão, isso é um equívoco. A IA precisa ser muito bem guiada para entregar as respostas corretas, e é o humano quem faz isso”, afirma o executivo.
IA como ferramenta, não como substituta
Dentro desse contexto, a Everflow adotou uma abordagem pragmática no uso da tecnologia: utilizar inteligência artificial para aumentar a produtividade e liberar profissionais de tarefas operacionais, permitindo que concentrem tempo em atividades estratégicas.
“A gente enxerga a IA como um meio, nunca como um fim. O verdadeiro valor está em como ela libera tempo, reduz erros operacionais e permite que as pessoas foquem no que é estratégico, criativo e decisivo para o negócio”, explica Lyra.
Essa estratégia surge da própria realidade das empresas que utilizam sistemas de gestão empresarial (ERP), que operam em ambientes complexos e com forte pressão por eficiência, controle e qualidade no atendimento.
“É um ambiente de alta complexidade em que as empresas precisam ser rápidas, eficientes e, ao mesmo tempo, manter qualidade no atendimento. Prometer automação total pode até soar sedutor, mas dificilmente é sustentável no longo prazo”, acrescenta o CEO.
Impactos no mercado de trabalho
Dados recentes mostram que a inteligência artificial tende a transformar funções, mas não necessariamente eliminar empregos em larga escala.
Um relatório do World Economic Forum projeta que até 2030 cerca de 92 milhões de empregos podem ser substituídos por automação e IA, enquanto aproximadamente 170 milhões de novas funções devem surgir, resultando em um saldo positivo de 78 milhões de postos de trabalho no mundo.
Nos Estados Unidos, a pesquisa SHRM Automation/AI Survey 2025 aponta que 7,8% dos empregos já possuem metade de suas tarefas realizadas com apoio de IA generativa. Ao mesmo tempo, cerca de 40% dos empregadores esperam reduzir parte da força de trabalho em funções altamente automatizáveis.
Do ponto de vista financeiro, o impacto também aparece nos resultados das empresas. Segundo levantamento do Google Cloud, 74% das companhias que utilizam IA generativa relatam retorno sobre investimento positivo no primeiro ano, enquanto 86% registram aumento de receita de pelo menos 6%.
Estimativas da Bloomberg Intelligence indicam que o mercado global de IA generativa pode alcançar US$ 1,3 trilhão até 2032, impulsionado por aplicações que vão desde atendimento ao cliente até análise avançada de dados.
Como a tecnologia é aplicada na prática
Na Everflow, a implementação da inteligência artificial foi estruturada em áreas específicas da operação, com foco em vendas, sucesso do cliente e desenvolvimento de software.
No setor comercial, a tecnologia é utilizada para qualificar leads e identificar potenciais clientes com maior aderência ao perfil ideal de contratação. A IA também ajuda consultores a se prepararem antes de reuniões, oferecendo análises sobre o setor do cliente e identificando possíveis necessidades de gestão.
“Após as conversas, a ferramenta consegue mapear os principais pontos de dor, como gargalos na gestão de estoque, e ajuda a personalizar as propostas comerciais de forma muito mais assertiva”, explica Lyra.
Na área de Customer Success, responsável pela implantação e acompanhamento de sistemas de gestão, a empresa utiliza IA para gerar resumos automáticos de reuniões, criar checklists de implantação e identificar sinais de dificuldades ou insegurança nas interações com clientes.
Já no suporte técnico, a tecnologia funciona como assistente do time humano, estruturando respostas e organizando informações para acelerar o atendimento sem eliminar o contato direto com especialistas.
“Clientes são pessoas, não tickets de suporte. Quando você joga alguém sem preparo técnico para interagir só com robôs, a frustração vem rápido. A gente acredita em um modelo em que a IA trabalha nos bastidores, fortalecendo o time humano”, afirma o executivo.
No desenvolvimento de software, a inteligência artificial também tem papel importante na automação de testes, na aceleração da escrita de código e na análise de sistemas internos, permitindo que engenheiros concentrem esforços em decisões técnicas mais complexas.
Nova fase da transformação digital
Para Lyra, o mercado começa a entrar em uma nova etapa no uso da inteligência artificial corporativa. Após um período marcado por expectativas elevadas, as empresas passam a buscar resultados concretos e integração real da tecnologia aos processos de trabalho.
“Quem entende o negócio do cliente são as pessoas. A IA entra para estruturar informações, cruzar dados e acelerar análises, não para decidir sozinha. A estratégia continua sendo humana”, afirma.
Na avaliação do executivo, a próxima onda da IA corporativa deve focar menos em substituir profissionais e mais em transformar a forma como eles trabalham, elevando o nível de especialização das equipes e tornando as empresas mais produtivas e resilientes.




















