A economia mundial enfrenta um cenário de incertezas em 2025, com riscos elevados para empresas e negócios, mas a América Latina parece estar em uma posição relativamente estável.
A conclusão é do RiskMap, levantamento anual realizado pela empresa britânica Control Risks, apresentado em um webinar promovido pela Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil (Britcham), nesta terça-feira (1).
Riscos Geopolíticos: O Impacto de Donald Trump e os Efeitos na América Latina
De acordo com Christian Perlingiere, sócio da Control Risks para Brasil e Cone Sul, os riscos econômicos globais estão associados a diversos fatores, incluindo as políticas adotadas por Donald Trump desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos.
A principal preocupação está com o crescente isolamento dos EUA, que tem gerado maior instabilidade geopolítica e afetado as relações internacionais. No entanto, Perlingiere destaca que as iniciativas do governo americano não têm focado diretamente na América Latina, o que tem contribuído para a relativa estabilidade da região.
A exceção, segundo o especialista, é a questão dos imigrantes ilegais, que afeta principalmente a América Central e o México. A América do Sul, por sua vez, tem sido menos impactada por essas políticas, o que tem proporcionado um ambiente mais seguro para os negócios na região.
O Brasil e sua Postura Frente aos Desafios Geopolíticos
Julia Souza, consultora de Risco Político da Control Risks, falou sobre a postura do Brasil diante do cenário geopolítico no webinar da Britcham. Ela explicou que, embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha demonstrado apoio à vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, nas eleições norte-americanas, o Brasil tem adotado uma posição pragmática na sua política externa, evitando confrontos, principalmente em relação às tarifas impostas pelo governo Trump.
Souza também lembrou que a América Latina, incluindo o Brasil, não deve ser central na nova diplomacia dos Estados Unidos. Ela sugeriu que o relacionamento dos EUA com a Argentina merece atenção, especialmente devido ao alinhamento do presidente Javier Milei com Trump.
No entanto, a consultora destacou que, mesmo com essa proximidade, a Argentina não poderá abrir mão das parcerias com a China, o que pode fortalecer ainda mais o relacionamento entre o Brasil e os chineses.
Riscos Cibernéticos: Desafios para Empresas em um Mundo Digital
O webinar também abordou o aumento dos riscos cibernéticos, um tema cada vez mais relevante no contexto global. Lucas Silva, diretor de Discovery + Data Insights da Control Risks, alertou sobre os perigos decorrentes da concentração digital e da dependência de poucos fornecedores de serviços.
Ele destacou o caso de uma falha em uma fornecedora norte-americana de cibersegurança, que gerou um prejuízo de US$ 5,2 bilhões em 2024, impactando diversos setores, incluindo a paralisação de aeroportos.
Silva explicou que, além das falhas de fornecedores, o crescente financiamento de hackers por governos e a rápida evolução das tecnologias, como a computação em nuvem e a inteligência artificial, ampliaram a vulnerabilidade das empresas, especialmente em relação às cadeias de suprimento.
Ele também ressaltou que os governos, em geral, não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas e as ações dos hackers, o que aumenta significativamente os riscos.
O Brasil, de acordo com Silva, é um dos países mais afetados por ataques cibernéticos. O país ocupa a segunda posição no ranking mundial, com 700 milhões de tentativas de ataque por ano, o que equivale a um ataque a cada minuto.
O especialista observou que muitas empresas no Brasil ainda não se atentam às questões de segurança cibernética, o que agrava a situação. A falta de atenção à “segurança por design”, que envolve a implementação e o ciclo contínuo de gestão das tecnologias, tem sido um fator preocupante.
Crime Organizado e Eventos Climáticos: Fatores de Risco no Brasil
Além dos riscos cibernéticos, os especialistas da Control Risks alertaram sobre o crescimento do crime organizado e os impactos dos eventos climáticos extremos, que também afetam diretamente os negócios. Souza citou uma estimativa da OCDE que aponta para uma perda de 1,3% do PIB brasileiro devido aos danos causados por fenômenos climáticos.
Ela também destacou a expansão do crime organizado no Brasil, que, há 20 anos, estava concentrado nas regiões do Rio de Janeiro e São Paulo, mas que atualmente se espalhou para o Nordeste e a Amazônia, em um fenômeno semelhante ao que ocorre no México.
Desafios Futuros
O webinar realizado pela Britcham trouxe à tona um cenário global repleto de incertezas, mas com uma visão mais otimista para a América Latina, em especial para o Brasil, que tem demonstrado uma postura cautelosa em relação aos desafios geopolíticos.
No entanto, a crescente preocupação com os riscos cibernéticos e a violência do crime organizado no país são questões que exigem uma atenção especial de empresas e governos para garantir a estabilidade econômica e a segurança dos negócios.