O mês de janeiro de 2026 marcou um período de intensa tensão geopolítica entre Estados Unidos e Venezuela, após a operação que resultou na captura de Nicolás Maduro. A ação desencadeou um processo complexo de negociações internacionais, supervisão das receitas petrolíferas e disputas sobre o futuro político do país. Autoridades norte-americanas, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, anunciaram um plano em três fases — estabilização, recuperação e transição — com o objetivo de evitar o colapso institucional e viabilizar reformas profundas, especialmente no setor de energia e na gestão dos recursos petrolíferos.
Ao longo de janeiro, o foco das autoridades norte-americanas esteve concentrado no setor de energia, principal eixo econômico da Venezuela, cuja produção permanece muito abaixo dos níveis registrados em décadas anteriores. Dados do Fundo Monetário Internacional indicam que a economia venezuelana segue em contração nos últimos anos, com o Produto Interno Bruto estimado em cerca de US$ 82,8 bilhões em 2025. A crise, agravada pelas tensões com os Estados Unidos, afeta fluxos comerciais, cadeias energéticas e movimentos migratórios na América do Sul, reforçando a necessidade de monitorar atentamente os desdobramentos regionais.
Segundo Adriano Murta, advogado tributarista especializado em investimentos internacionais, os acontecimentos na Venezuela têm potencial de influenciar toda a economia sul-americana, inclusive o Brasil, ainda que de forma gradual. “Não se trata de um impacto imediato, mas de um processo que molda decisões ao longo do tempo. A expectativa de reorganização do setor de energia afeta cadeias regionais, a confiança de investidores e decisões empresariais, especialmente em países da América do Sul integrados aos fluxos globais de commodities”, afirma.
No caso brasileiro, os dados oficiais indicam uma relação comercial limitada, porém existente, com a Venezuela. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil registrou em 2025 um superávit comercial de aproximadamente US$ 489 milhões com o país vizinho, com exportações concentradas em alimentos, produtos industrializados, equipamentos e bens de consumo. Embora a Venezuela represente menos de 1% do comércio exterior brasileiro, mudanças políticas no país repercutem em cadeias regionais e podem influenciar decisões de investimento em setores estratégicos.
Murta ressalta que empresas brasileiras devem observar com atenção técnica os efeitos indiretos desse cenário. “Uma eventual retomada da produção venezuelana, ainda que gradual e condicionada a avanços institucionais e regulatórios, tende a alterar expectativas sobre a oferta global de energia e a dinâmica de preços internacionais. Isso pode influenciar custos de insumos, renegociação de contratos de longo prazo e estratégias de exportação, especialmente em setores intensivos em energia, transporte e logística, que operam com margens sensíveis às variações do mercado internacional”, explica.
Para investidores brasileiros, o tema ganha relevância diante da elevada integração econômica com os Estados Unidos e outros mercados globais, além do crescimento expressivo do capital investido no exterior nas últimas décadas. O contexto é reforçado pela forte dependência da América do Sul de commodities, como petróleo, gás e minerais, que figuram entre os principais produtos de exportação da região. Qualquer alteração na oferta internacional desses insumos se torna um fator determinante para a formação de preços, a estruturação de contratos e o planejamento estratégico de empresas sul-americanas, inclusive brasileiras.
Na avaliação de Murta, janeiro evidenciou que o principal risco não está em uma ruptura imediata, mas na evolução regulatória do cenário. “Ambientes de instabilidade geopolítica elevam o risco jurídico, especialmente quando envolvem sanções, tarifas adicionais e revisões contratuais. Para empresas e investidores brasileiros, o mais importante neste momento é acompanhar de perto as decisões dos Estados Unidos e fortalecer o planejamento jurídico-tributário para evitar exposição excessiva”, conclui.




















