O prefeito de Cubatão (SP), César Nascimento (PSD), decidiu recorrer ao governo federal após o encerramento das atividades de duas empresas históricas instaladas no município: a petroquímica Unigel e a Yara Brasil Fertilizantes. As duas paralisações ocorreram em menos de um ano e aprofundaram a crise do polo industrial da cidade, um dos mais tradicionais do país.
Nascimento planeja viajar a Brasília acompanhado de representantes políticos, empresariais e sindicais da Baixada Santista. A intenção é solicitar uma reunião com o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, para discutir os impactos econômicos e sociais do fechamento das fábricas e defender a revisão da política tarifária que incide sobre o setor petroquímico, especialmente na importação de fertilizantes.
“A perda de protagonismo de um polo industrial da relevância de Cubatão não é um problema local, mas um fator de enfraquecimento da indústria nacional como um todo”, afirmou o prefeito. Ele também defende medidas de defesa comercial e melhores condições de financiamento para a atividade produtiva.
Além disso, Nascimento pretende pedir celeridade à Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do ministério, na conclusão do processo administrativo aberto em 2025 para investigar a suposta prática de dumping nas exportações chinesas de produtos laminados de ferro ou aço para o Brasil. Em dezembro de 2025, a Secex divulgou parecer preliminar apontando indícios de dumping, mas prorrogou o prazo para a conclusão da investigação.
Paralisação de unidades
No último dia 8, a Unigel anunciou a paralisação das atividades de sua fábrica de estireno e tolueno em Cubatão, após quase 70 anos de operação. Segundo a empresa, a decisão foi motivada por uma “baixa sem precedentes na indústria química global”, marcada pela sobreoferta de commodities petroquímicas desde 2023.
Embora não descarte uma eventual retomada, a companhia afirmou não haver perspectiva de reversão no curto prazo. A produção de poliestireno será concentrada na unidade de Guarujá, também na Baixada Santista, para onde será transferida ainda a produção da planta de São José dos Campos, cujo fechamento foi anunciado nesta terça-feira (13).
Em recuperação judicial desde outubro de 2025, a Unigel tenta renegociar uma dívida superior a R$ 5 bilhões. As unidades de Cubatão e São José dos Campos empregavam, juntas, cerca de 140 trabalhadores diretos, além de funcionários indiretos.
Dias antes do anúncio, o prefeito informou ter oferecido isenções fiscais para tentar manter as operações e preservar empregos. No âmbito regional, ele também defendeu a união dos prefeitos da Baixada Santista para cobrar medidas de estímulo à indústria junto aos governos estadual e federal.
Impacto histórico
O fechamento das fábricas reforça o esvaziamento do polo industrial de Cubatão, que já foi símbolo da industrialização paulista e nacional, especialmente nos setores de siderurgia, química, petroquímica e fertilizantes. Na década de 1980, a intensa atividade industrial levou a cidade a ser classificada pela ONU como o município mais poluído do mundo.
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e de Fertilizantes da Baixada Santista (Sindquim), Herbert Passos Filho, Cubatão chegou a empregar cerca de 12 mil trabalhadores apenas nas indústrias petroquímicas. Hoje, esse número é de aproximadamente 3 mil.
“Desde a privatização da Cosipa e o fechamento de várias fábricas, o polo vem encolhendo. E a expectativa é que esse número continue caindo”, afirmou Passos, lembrando que a paralisação das atividades da siderúrgica, em 2016, resultou na perda de cerca de 15 mil postos de trabalho diretos e indiretos.
Fertilizantes e tributação
Para o sindicalista, a crise das produtoras de fertilizantes, como a Yara, está relacionada à dependência crescente de insumos importados, historicamente beneficiados por isenções ou redução de tributos. Segundo ele, desde 2008, a produção nacional de fertilizantes caiu de cerca de 11 milhões para 6 milhões de toneladas anuais, enquanto o consumo subiu de 24 milhões para mais de 41 milhões de toneladas.
Nos últimos anos, o governo federal adotou medidas para estimular o setor. Em 2021, o Confaz atualizou regras de isenção do ICMS sobre fertilizantes, prevendo aumento gradual da alíquota até 4% em dezembro de 2025. A medida enfrenta resistência do agronegócio, que alega aumento de custos.
No fim de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.294, que institui o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), prevendo mais de R$ 10 bilhões em incentivos fiscais entre 2027 e 2031. Antes, em 2023, o governo retomou o Regime Especial da Indústria Química (Reiq).
Competitividade e reação
Em visita à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), nesta quinta-feira (15), Geraldo Alckmin afirmou que o polo petroquímico brasileiro enfrenta dificuldades de competitividade devido à concorrência internacional. Segundo ele, o governo tem adotado políticas para reduzir custos e fortalecer a defesa comercial, sem recorrer a guerras comerciais.
“O Brasil é favorável ao livre comércio, mas com regras”, disse o ministro, acrescentando que o tema é tratado em diálogo com a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) também lamentou o fechamento das fábricas em Cubatão e afirmou que tem intensificado o diálogo com diferentes esferas de governo para conter o processo de desindustrialização iniciado nos anos 1980 e preservar empregos no setor produtivo.
Com informação agência Brasil.






















