A plumagem azul e amarela das araras-canindés voltou a colorir o céu do Rio de Janeiro com a primeira soltura da espécie na capital fluminense, onde ela era considerada extinta. A ação ocorreu no início de janeiro e foi realizada pela organização da sociedade civil Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no Parque Nacional da Tijuca.
Três fêmeas da espécie foram libertadas na floresta urbana: Fernanda, Suely e Fátima. Segundo a bióloga Lara Renzeti, coordenadora do projeto de reintrodução, não havia mais população de araras-canindés vivendo em liberdade no Rio de Janeiro. Esta foi, até agora, a única soltura da espécie no estado.
Os nomes das aves fazem referência à atriz Fernanda Torres e a personagens interpretadas por ela e por Andréa Beltrão na televisão. As araras vieram do Parque Três Pescadores, em Aparecida (SP), onde funciona o Refúgio das Aves, centro especializado na reabilitação de animais silvestres não domesticados.
Um quarto exemplar, um macho batizado de Selton, em homenagem ao ator Selton Mello, não pôde ser solto junto ao grupo. Ele ainda se recupera de uma infecção pulmonar não contagiosa, que enfraqueceu suas penas, e deverá aguardar a chegada de um novo grupo para passar pelo processo de aclimatação antes da soltura.
Aclimatação e treinamento
As araras chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025 e passaram meses em um recinto instalado dentro da floresta, onde se adaptaram aos sons, cheiros e condições do novo ambiente. Durante esse período, receberam treinamento de voo para fortalecimento muscular e condicionamento físico, além de aprenderem a se alimentar de frutos nativos encontrados na Mata Atlântica.
A equipe do Refauna também trabalhou para evitar comportamentos inadequados, como a aproximação excessiva de pessoas. A alimentação foi oferecida em plataformas suspensas, estimulando o voo e reduzindo o contato humano direto.
Segundo Lara Renzeti, o recinto de 20 metros foi suficiente para preparar as aves, que após a soltura conseguiram realizar voos de até 10 quilômetros, demonstrando bom condicionamento físico.
Monitoramento e participação da população
Após a soltura, as araras continuam sendo monitoradas pela equipe técnica. Em alguns casos, pode ser necessária a recaptura temporária de indivíduos, seja para ajustes no comportamento, seja para evitar situações de risco, como a aproximação de áreas urbanas em busca de alimento.
As aves utilizam anilhas, microchips e colares de identificação. O monitoramento também conta com a participação da população, por meio de relatos enviados ao Refauna, prática conhecida como ciência cidadã. Informações podem ser compartilhadas pelas redes sociais da organização, pelo WhatsApp ou por meio do aplicativo SISS-Geo, desenvolvido pela Fiocruz.
A chefe do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar, destacou a importância da educação ambiental e da convivência responsável entre visitantes, moradores do entorno e a fauna silvestre. Cursos de formação para guias turísticos estão sendo desenvolvidos para orientar o público sobre como agir ao encontrar animais na floresta.
Meta de longo prazo e restauração ecológica
A meta do Refauna é soltar cerca de 50 araras-canindés ao longo de cinco anos, com a liberação média de dez indivíduos por ano. A organização ressalta que a reintrodução de espécies não é um processo exato e que nem todos os animais necessariamente se estabelecerão ou se reproduzirão, o que torna essencial a soltura de grupos maiores.
Embora a arara-canindé não esteja ameaçada de extinção em nível nacional, a espécie desapareceu do estado do Rio de Janeiro, onde havia registros históricos desde o século 16. A reintrodução tem papel fundamental na restauração ecológica da Mata Atlântica, bioma em que cerca de 90% das plantas dependem de animais para a dispersão de sementes.
Desde 2010, o Refauna já reintroduziu outras espécies no Parque Nacional da Tijuca e em áreas protegidas do estado, como cutias, jabutis, bugios e antas. O objetivo é combater a defaunação e fortalecer o funcionamento dos ecossistemas.
“Quando uma espécie é extinta, não é só ela que desaparece; todo um ciclo de vida se desfaz”, alerta o Refauna.




















