Imagens hiper-realistas geradas por inteligência artificial nunca estiveram tão presentes nos escritórios de arquitetura. Em poucos minutos, algoritmos entregam formas arquitetônicas sedutoras e ambientes visualmente impecáveis. O problema é que, quando essas imagens chegam à realidade do orçamento, da legislação e da execução, muitas simplesmente não se sustentam. A Tecnologia avançou rápido, porém o poder de decisão, não.
Uso inteligência artificial no meu dia a dia profissional. Ela organiza informações, acelera estudos preliminares, simula cenários e melhora apresentações. Em fases iniciais de projeto, contribui para análises de insolação, ventilação, estudos de forma e ocupação, além de apoiar avaliações preliminares de impacto. O ganho de produtividade é real. O erro está em atribuir à ferramenta um papel que ela não pode cumprir.
Arquitetura não é escolher a imagem mais impactante. É tomar decisões que envolvem responsabilidade técnica, impacto financeiro e consequências diretas no cotidiano das pessoas. A inteligência artificial sugere caminhos, mas não assume riscos. Não responde por incompatibilidades, não negocia soluções na obra e não assina a responsabilidade final de um projeto.
Essa diferença fica clara quando clientes chegam encantados por imagens geradas por algoritmos. A estética impressiona, mas frequentemente falta viabilidade. O desenho não conversa com o orçamento disponível, com o método construtivo, com normas técnicas ou com o uso real do espaço. Nesse momento, o arquiteto deixa de ser operador de ferramenta e reassume seu papel essencial: decidir.
Há a ideia recorrente de que a IA substituirá o profissional. Na prática, ela automatiza tarefas repetitivas e libera tempo para aquilo que sempre foi o verdadeiro valor da arquitetura: pensar, coordenar, antecipar conflitos e traduzir necessidades em soluções executáveis. Onde há julgamento, contexto e responsabilidade, a decisão segue humana.
Outro ponto pouco discutido é que a inteligência artificial não cria a partir do zero, mas reorganiza referências existentes. Isso pode ser útil como estímulo visual, mas não constrói identidade. Projetos relevantes não surgem da média do que já foi feito, e sim da leitura precisa de um contexto específico, em um tempo específico, para pessoas reais.
Na obra, essa diferença se aprofunda. Imprevistos acontecem, conflitos surgem e decisões precisam ser ajustadas em tempo real. Não existe algoritmo capaz de substituir a experiência de quem já viu um projeto falhar no papel e aprendeu a evitar o erro seguinte.
A discussão mais honesta, portanto, não é até onde a inteligência artificial pode ir, mas onde ela deve parar. Como ferramenta, amplia a capacidade do profissional. Como substituta da decisão humana, cria uma falsa sensação de segurança.
Arquitetura não é apenas o que se vê. É o que funciona, o que dura e o que faz sentido ao longo do tempo. E decidir, isso continua sendo uma tarefa humana.




















