A entrada em vigor da Resolução CMN nº 5.267/2025, prevista para março de 2026, redefine o padrão regulatório do crédito rural no Brasil ao transformar o monitoramento da aplicação dos recursos em responsabilidade integral das instituições financeiras.
Embora o setor já opere com base em dados, análises técnicas e instrumentos de mitigação de risco, a nova norma estabelece de forma objetiva a exigência de acompanhamento permanente ao longo de toda a jornada da operação — e não apenas no momento da concessão ou em fases específicas do contrato.
Na prática, isso significa que bancos, cooperativas e demais agentes precisarão integrar informações financeiras, cadastrais, históricas, territoriais e produtivas de maneira consistente, rastreável e auditável. A resolução também reforça o uso de tecnologias como sensoriamento remoto e monitoramento por satélite para verificar a finalidade do crédito.
Desafio é transformar dados em decisões qualificadas
Mais do que coletar informações, o desafio passa a ser interpretá-las corretamente. A identificação de eventuais desvios de finalidade exige capacidade analítica para diferenciar imprecisões operacionais de irregularidades relevantes, evitando tanto a subestimação de riscos quanto penalizações indevidas a produtores.
Estudo da Serasa Experian, primeira e maior datatech do país, aponta que a maior parte das operações segue corretamente o plano de aplicação. Na safra 2022/23, análise de operações de custeio da soja indicou que 76% do plantio apresentou uso adequado dos recursos.
Por outro lado, 24% das operações registraram indícios de desvio superior a 10% da área financiada, o que demanda acompanhamento mais rigoroso. Dentro desse grupo, cerca de 7% concentraram casos considerados críticos, com divergências significativas entre o cultivo financiado e o efetivamente realizado.
Especialistas alertam que parte dessas ocorrências pode estar relacionada a margens de erro ou inconsistências cadastrais, e não necessariamente a desvios de finalidade. Ainda assim, os dados ajudam a dimensionar o risco financeiro das operações e reforçam a necessidade de monitoramento contínuo.
Ao tornar essa prática uma exigência formal, o Conselho Monetário Nacional consolida um novo patamar de governança no crédito rural. Para as instituições financeiras, o desafio vai além do cumprimento da norma: envolve aprimorar infraestrutura de dados, fortalecer a gestão de risco e aumentar a eficiência das operações no campo.




















