Pesquisas recentes do IBGE indicam que mais de 70% dos brasileiros não mantêm reserva financeira suficiente para enfrentar imprevistos prolongados. O dado ajuda a dimensionar como decisões relacionadas a dinheiro ainda são tomadas mais por impulso e medo do que por planejamento estruturado.
No ambiente corporativo, esse comportamento se reflete em escolhas apressadas, adiamentos estratégicos e resistência a temas sensíveis, como proteção financeira e gestão de riscos. Especialistas em desenvolvimento humano apontam que a inteligência emocional se tornou um fator decisivo para entender como líderes e equipes lidam com pressão, incerteza e responsabilidade financeira.
Leandro Lago, especialista em proteção de riscos financeiros e à frente do Grupo Futuro, observa que esse movimento tem aproximado práticas antes vistas como subjetivas, como Programação Neurolinguística e autoconhecimento, das discussões sobre negócios. Para ele, a forma como as pessoas se relacionam com o dinheiro influencia diretamente as decisões empresariais. “Medo de errar, de perder status ou de assumir riscos faz com que muitos líderes evitem conversas fundamentais sobre proteção e continuidade do negócio”, afirma.
A dificuldade em falar sobre proteção financeira não surge por acaso. Estudos em psicologia econômica mostram que o ser humano tende a evitar assuntos associados à perda, mesmo quando reconhece racionalmente a importância de se preparar. No cotidiano das empresas, isso se traduz em contratos não revisados, ausência de planos de contingência e dependência excessiva de pessoas-chave. “Quando a emoção domina, a decisão deixa de ser estratégica e passa a ser defensiva”, observa o especialista.
Esse padrão também se repete na liderança. Executivos sob pressão constante tomam decisões em ambientes de alta carga emocional, com pouco espaço para reflexão. Nesses contextos, o autoconhecimento ganha papel central. Reconhecer gatilhos emocionais, limites pessoais e vieses de decisão ajuda a reduzir erros e ampliar a clareza estratégica. “Liderar não é apenas dominar números, mas entender como se reage ao risco e à responsabilidade”, diz Lago.
Diante dos impactos práticos desse comportamento, consultorias e corretoras especializadas passaram a oferecer serviços que integram análise técnica e leitura comportamental. A contratação dessas empresas exige critérios claros, como histórico, transparência na metodologia e capacidade de traduzir conceitos complexos em decisões aplicáveis ao negócio. “Não se trata de terceirizar a decisão, mas de ganhar repertório para decidir melhor”, aponta.
Antes de avançar, especialistas alertam para cuidados necessários. Programas de desenvolvimento humano precisam estar alinhados à realidade da empresa e não podem ser tratados como soluções imediatas. A aplicação sem diagnóstico adequado ou sem acompanhamento tende a gerar frustração. “Ferramentas emocionais são apoio à estratégia, não substitutas dela”, ressalta.
Algumas empresas têm adotado caminhos práticos para integrar comportamento e gestão. O primeiro passo costuma ser o mapeamento do perfil de decisão da liderança, identificando padrões de risco, aversão à perda e falhas de comunicação interna. Esse diagnóstico cria base para ações mais consistentes e evita a adoção de soluções genéricas desconectadas da realidade do negócio.
Entre as principais vantagens está a redução de decisões reativas. Com maior consciência emocional, líderes tendem a antecipar cenários, revisar contratos com mais critério e lidar melhor com momentos de crise, contribuindo para maior estabilidade financeira e organizacional.
O principal alerta é a necessidade de continuidade. Treinamentos pontuais, sem integração à cultura da empresa, costumam ter efeito limitado e não alteram o comportamento no longo prazo, especialmente em ambientes de alta pressão e tomada constante de decisão.
No centro desse debate está a constatação de que decisões financeiras raramente são apenas racionais. Elas carregam histórias pessoais, crenças e emoções que influenciam o rumo das empresas. “Quando o líder entende isso, passa a decidir com mais lucidez, mesmo sob pressão”, conclui.




















