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Infraestrutura: setor vital para a retomada econômica

Por Francilene Rodrigues de Freitas

No mundo todo, serviços de saneamento, transporte, mobilidade urbana, energia e telecomunicação contribuem com o progresso, criam melhores condições para a vida em sociedade e geram emprego e renda.

Das estradas e ferrovias que transportam pessoas e bens, reduzindo os custos para os consumidores e acelerando as exportações, às usinas e redes de comunicações que sustentam a atividade econômica e doméstica; dos portos marítimos que conectam a economia ao mundo, à necessidade humana básica de água potável e saneamento, a infraestrutura é importante para as pessoas e empresas, em todos os lugares.

Trata-se de um setor vital para o desenvolvimento socioeconômico de um país.

Um estudo da Oxford Economics em parceria com a Global Infrastructure Hub analisou sete setores, em 50 países, e estimou que o investimento em infraestrutura global precisa ser da ordem de US﹩ 94 trilhões, até 2040.

Para atender a essa necessidade de investimento, o mundo precisará dedicar à infraestrutura cerca de 3,5% do PIB.

De acordo com o mais recente Índice Global de Investimento em Infraestrutura, Cingapura, Catar e Canadá são os países mais atraentes para investidores. O estudo leva em conta questões como o PIB per capita, impostos, políticas, disponibilidade de financiamentos e a infraestrutura já existente no país.

Em 2018, Cingapura ocupava o primeiro lugar no ranking mundial em qualidade de infraestrutura.

A China tem investimentos da ordem de US﹩ 547 bilhões: há muitas obras de rodovias, ferrovias, pontes, portos e aeroportos sendo realizadas em tempo recorde.

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Francilene Rodrigues de Freitas
Superintendente de Riscos Industriais e Financeiros – MAPFRE

Nesse projeto está o novo Aeroporto Internacional de Pequim, Daxing, que deve ser concluído ainda este ano a um custo de US﹩ 12 bilhões.

Segundo o Global Groundwork Index, que analisa infraestrutura e força de investimento de instalação corporativa, o ranking de 2019 de países que mais atraem investidores ficou assim: 1º Canadá; 2º Estados Unidos; 3º Emirados Árabes Unidos; 4º Austrália; 5º Reino Unido; 6º Cingapura; 7º Brasil; 8º México; 9º Bahrain e 10º Dinamarca.

Há anos, o status do Canadá não mostra sinais de declínio, devido a fatores como clima frio, população relativamente pequena e a positiva história de exploração de recursos naturais, além da presença de muitos projetos de mineração.

Em regiões subdesenvolvidas ou menos desenvolvidas, como é o caso do Brasil, Peru e Chile, os investimentos em novas infraestruturas contribuem com o desenvolvimento econômico e atendem às necessidades básicas, como serviços públicos e redes de transporte.

Em mercados desenvolvidos, o investimento é necessário para substituição e atualização de infraestrutura. Na Holanda, por exemplo, o plano “Room for the River” ajudou a cidade de Nijmegen a melhorar a gestão da água, repensando o controle de enchentes. Em vez de construir diques mais altos, os projetistas moveram essas estruturas e aumentaram o espaço para o fluxo do rio, permitindo que a natureza controlasse o fluxo da água.

O programa é considerado tão bem-sucedido que representantes de Bangladesh, China, Filipinas e Vietnã visitaram a Holanda para aprender como ele pode ser aplicado em seus países.

Assim que a atual crise do Covid-19 for contida, o foco dos governos em todos os países, inevitavelmente, mudará para a melhoria da saúde econômica. Com seu imenso potencial de criação de empregos, a infraestrutura pode desempenhar um papel significativo nessa recuperação.

O investimento privado é um caminho bem trilhado para financiar o desenvolvimento de infraestrutura. Com os fundos do governo cada vez mais pressionados para pagar as contas nas áreas de saúde, educação e obrigações previdenciárias, recorrer ao setor privado para financiar alguns projetos de infraestrutura será essencial, agora mais do que nunca.

Muito provavelmente, o setor de infraestrutura sustentará a recuperação econômica e social, em todo o mundo. Ou, ao menos, será um dos pilares da retomada em um cenário de reestruturação no pós-pandemia.

Brasil apresenta uma perspectiva em construção

Com a pandemia, o encolhimento dos investimentos públicos e o atraso na agenda de concessões, em 2020, os aportes em infraestrutura deverão somar R﹩ 124,6 bilhões, quase o mesmo patamar de 2019.

Esses valores representam 1,77% do Produto Interno Bruto (PIB), longe do ideal: o Brasil precisaria investir anualmente em infraestrutura 4,24% do PIB, o que significaria o desembolso de R﹩ 174 bilhões só neste ano.

A regulação avançou, com destaque para o novo Marco do Saneamento, que prevê US﹩ 137 bilhões em investimentos nos próximos dez anos. Em contrapartida, o cronograma de leilões sofreu atrasos.

O plano era conceder sete trechos rodoviários federais, mas o número caiu para três. A próxima rodada de aeroportos inclui 22 terminais e está prevista para março de 2021, assim como a relicitação da Via Dutra, também adiada.

A mais recente pesquisa semestral da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) mostrou que só 17,5% dos empresários projetavam um cenário promissor para investir este ano, contra 47,9% em 2019.

O país tem conquistas importantes, como a universalização da eletrificação rural em 20 anos.

Mas ainda tem desafios significativos em infraestrutura: 16% da população não tem água encanada, o transporte público é caro demais para uma parcela da população e pouco atrativo para outra, e 24% das rodovias asfaltadas estão em más condições.

Mas há esperança.

A retomada dos leilões para o setor privado trouxe fôlego para o setor, com agentes internacionais voltando a mirar no Brasil, para aportes por aqui.

A expectativa do governo federal é de levantar algo em torno de R﹩ 250 bilhões em contratos até o final de 2022 e realizar 100 leilões de concessões. E o Ministério de Infraestrutura estima que a execução das obras no setor gere cerca de dois milhões de empregos até 2023.

Bancos de desenvolvimento podem ajudar os países do BRICS

Em agosto de 2020, o Senado Federal ratificou o acordo que inclui o Brasil como membro fundador do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII).

A adesão ao BAII faz parte de um movimento do governo brasileiro para atrair investimentos em um momento particularmente crítico para as contas públicas.

Esse movimento pode ganhar contornos estratégicos se for além do financiamento de medidas emergenciais de enfrentamento do novo coronavírus, ao privilegiar empréstimos para a reconstrução de longo prazo da economia brasileira com base em um modelo sustentável e inclusivo, e ao promover a reinserção competitiva do Brasil na economia global.

Nesse mesmo cenário, os cinco países do BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – apostam na liberação de financiamentos do New Development Bank (NDB), o banco do Brics, para ampliar os investimentos em infraestrutura. O NDB já aprovou US﹩ 2,55 bilhões em empréstimos para o Brasil.

O governo brasileiro acredita que virão investimentos para o setor ferroviário, já que há duas ferrovias com leilões previstos para o ano que vem, com planos para trens de passageiros, o que pode representar um renascimento econômico do setor.

O BNDES e os bancos de desenvolvimento dos demais países do Brics também assinaram acordos com o objetivo de mobilizar investimentos privados em projetos de infraestrutura nos países do bloco.

A iniciativa prevê soluções financeiras, modelagens para concessões e parcerias público-privadas (PPPs), bem como propostas de aperfeiçoamento dos marcos legais e regulatórios aplicáveis. Uma forma de atrair recursos privados.

Retomada das atividades econômicas

Mesmo antes da pandemia, o setor já estava estagnado.

O Brasil ficou cinco anos praticamente parado, sem investimentos em infraestrutura. Quando se olha para o contexto econômico do país, talvez ainda não se possa falar em uma expectativa otimista, mas no mínimo é positiva.

A partir de 2021, o cenário deverá ser mais animador, uma vez que, mesmo em meio à pandemia, 2020 apresentou investimentos em pequenas obras e em melhorias de plantas em operação no setor de infraestrutura, principalmente na malha logística.

Um exemplo é o anúncio de que o grupo espanhol Acciona assumirá a construção e a operação da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, com 15,3 km de extensão e 15 estações. As obras da linha estão paradas desde 2016 e a estimativa é de que o empreendimento gere 5 mil empregos diretos, com previsão de término em até quatro anos.

Muito provavelmente, em 2021 a retomada ainda será incipiente, sem investimentos de grande porte, mas com casos pontuais. Dificilmente o cenário será altamente produtivo, com várias frentes e inúmeros projetos acontecendo ao mesmo tempo, como era a realidade há dez anos.

Ainda assim, o setor de infraestrutura terá um aquecimento, com a iniciativa privada tomando a rédea de investir, para assim garantir a perenidade para o seu próprio negócio.

O investimento privado pode ser uma saída para escoar a produção, investir em parcerias em ferrovias e portos, exatamente para manter o giro do negócio adaptado à necessidade não só do mercado brasileiro, mas também do mercado internacional, para o setor de consumo.

Em termos de modais de transporte, o país tem a malha rodoviária como carro-chefe, ainda que haja uma sinalização de que o Brasil finalmente comece a olhar para ferrovias e hidrovias, caminhos importantes para que o país possa ter uma forte representatividade no mercado internacional.

As empresas estão buscando formas estratégicas para reduzir custos de logística e armazenamento. Investimentos em inovações nas cadeias produtivas podem minimizar custos, mas ainda assim será preciso mitigar a alta dependência no modal rodoviário.

O setor de energia, estratégico para o país, vem sendo definido e posicionado em função de matrizes energéticas e do comprometimento administrativo do governo.

Durante anos, o Brasil foi primordialmente uma matriz de hídricas. Hoje, apresenta um expressivo crescimento no setor eólico e fotovoltaico e a perspectiva é chegar em 2030 com essas outras energias renováveis muito próximas da matriz de hídricas, com declínio da dependência térmica.

O recurso da energia termoelétrica funciona como um regulador: quando há um problema de crise hídrica ou crise de ventos, as térmicas têm um papel importante. Mas é preciso apostar nessa diversificação e esse dever de casa o Brasil tem feito.

O país aprendeu a lidar com a fonte energética e por isso tem uma gestão e um sistema operador nacional muito profissionais. Trata-se de um setor bastante integrado, em que as empresas compartilham boas práticas, ainda que sejam concorrentes, justamente por estarem comprometidas integralmente com o setor. Pode servir de exemplo para os demais setores da infraestrutura do país.

Como a indústria de seguros se relaciona com o setor de infraestrutura

A indústria global de seguros é uma força estabilizadora essencial em todo o mundo. As seguradoras já desempenham um papel vital no apoio à resiliência e estabilidade em todos os setores da economia global, contribuindo com o desenvolvimento de soluções para os maiores desafios enfrentados por indivíduos, empresas e governos, especialmente durante grandes catástrofes e convulsões sociais.

Desde o início dos anos 2000, e diante da modernização da legislação, criou-se o conceito de compartilhamento de riscos entre os parceiros público e privado, permitindo que novos investidores se interessassem pelo modelo de concessão, principalmente de rodovias e aeroportos.

A indústria de seguros no Brasil, ao longo dos últimos 25 anos, vem aprimorando os programas de seguros e garantias para concessões de serviços públicos, protegendo o poder concedente, concessionária, regulador, financiador e usuários. Entretanto, ainda há muito a ser feito, principalmente frente às mudanças na legislação de licitações e concessões.

O setor de seguros está diretamente ligado à questão de mitigação de riscos e ainda tem muito a crescer no Brasil.

O país experimenta uma tendência, tendo que se globalizar, cada vez mais, e o setor de seguros vem acompanhando este movimento. Essa visão abre muitas fronteiras para a maturidade dos seguros no Brasil, para que se possa oferecer soluções para o cliente de uma forma global e com ainda mais garantias.

Atrair financiamento para fazer frente a um programa de investimentos em projetos de infraestrutura é um dos principais desafios para as companhias executarem as grandes obras necessárias para o desenvolvimento do Brasil.

Nesse sentido, uma regulação robusta e orientada para negócios, em conjunto com a interconexão entre o mercado de seguros e as empresas, é essencial para que ocorra um salto de investimento.

Nesse cenário, com a experiência que vem adquirindo ao longo dos anos, o setor de seguros vem cada vez mais aderindo às práticas de desenvolvimento da infraestrutura.


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